Quem participa de movimentos sociais, movimentos feministas e de mulheres, tem percebido, nos últimos anos, o crescimento vertiginoso dos diagnósticos psiquiátricos para os problemas das mulheres, com o consequente aumento da prescrição de remédios que acabam, de certa forma, dopando as mulheres ... essa reflexão da Ianni Macedo vem em boa hora, para que a gente comece a pensar se esses diagnósticos estão corretos, se eles aparecem com um objetivo definido ou se as doenças mentais estão mesmo se instalando em nossas vidas.
O sofrimento é ambíguo – e, cada vez mais, é enquadrado em categorias psiquiátricas. Isso limita a forma de interpretar a si e ao mundo. Talvez seja necessária uma expansão subjetiva para enxergar a diversidade da experiência humana…
Publicado 29/06/2026 - Outras Palavras

Vivemos em uma época na qual emoções, comportamentos e experiências cotidianas são cada vez mais interpretadas através de diagnósticos psiquiátricos. Termos originalmente técnicos como ansiedade, depressão, T.O.C, bipolaridade, autismo, déficit de atenção e narcisismo, passaram a habitar conversas familiares, relacionamentos amorosos, ambientes de trabalho, redes sociais e narrativas pessoais.
Crescentemente, utilizamos tais classificações para dizer sobre alguém. Ou até mesmo para explicar quem somos, o que sentimos e por que sofremos.
À primeira vista, isso pode parecer apenas um reflexo dos avanços no conhecimento sobre saúde mental. E em muitos aspectos, é. Reconhecer o sofrimento constitui uma condição fundamental para que ele possa ser acolhido. Nomear determinadas experiências pode favorecer sua compreensão, reduzir estigmas e ampliar possibilidades de cuidado.
Entretanto, esse cenário levanta questões mais profundas:
O que explica a facilidade com que categorias originalmente produzidas no campo da saúde mental passaram a organizar a compreensão que temos de nós mesmos? Por que os diagnósticos se tornaram referências tão poderosas para interpretar a experiência humana? Que efeitos essa apropriação produz sobre a subjetividade? Por que os diagnósticos nos atraem tanto?
São essas perguntas que orientam o estudo La patologización de la vida: ensayo a favor de la expansión subjetiva. Distanciando-me tanto da rejeição dos diagnósticos quanto de sua aceitação acrítica, eu – Ianni Macedo, psicóloga e pesquisadora no campo da Psicossociologia -, proponho uma reflexão sobre a temática pautada nas contribuições de autores do campo da Psicologia Social, as quais serão aqui, de maneira sintetizada, apresentadas.
A necessidade humana de nomear
Antes de nos aprofundarmos propriamente na temática da patologização da vida, convido você, leitor, a algumas reflexões: O que é a realidade? O que é o ser humano? O que se espera de seu comportamento?
Provavelmente, nenhuma dessas perguntas despertará uma única resposta.
Sob a perspectiva da Psicologia Social, aquilo que pensamos, sentimos e compreendemos sobre a realidade não constitui uma verdade universal ou natural, mas é continuamente construído nas interações sociais, por meio de crenças, valores, símbolos,
experiências e conhecimentos compartilhados que orientam nossa maneira de perceber e interpretar o mundo.
Isso significa que não vivemos apenas entre fatos, mas entre os sentidos que produzimos sobre eles. Uma realidade desprovida de significados talvez fosse apenas um conjunto caótico de acontecimentos, incapaz de orientar nossas ações, escolhas ou mesmo nossa compreensão sobre quem somos. É a produção de sentidos que transforma acontecimentos em experiências, comportamentos em identidades e vivências em histórias.
Talvez seja justamente por isso que nomear ocupe um lugar tão central na experiência humana:
Dar nome às coisas é uma forma de compreendê-las. Classificá-las é uma maneira de reduzir a incerteza. Produzir significados é, talvez, uma das formas mais humanas de tornar o mundo habitável.
Diante daquilo que não compreendemos, buscamos explicações. Quando uma experiência escapa às nossas referências, tentamos traduzi-la em palavras capazes de lhe conferir alguma estabilidade. O desconhecido produz desconforto; a ambiguidade nos desestabiliza. Nomear, nesse contexto, não é apenas um exercício da linguagem, mas uma tentativa de tornar o mundo menos incerto.
Quem define o que é normal?
As reflexões propostas por O Alienista, de Machado de Assis, embora elaboradas no século XIX, permanecem surpreendentemente atuais. Na narrativa, o médico Simão Bacamarte dedica sua vida à investigação da loucura, estabelecendo critérios cada vez mais precisos para distinguir sanidade e doença. À medida que sua busca pela definição da normalidade se radicaliza, comportamentos antes percebidos como ordinários passam a ser interpretados como patológicos, fazendo com que, rapidamente, grande parte da população da sua cidade seja internada.
Ao ver a cidade vazia, o médico percebe que a “loucura” havia se tornado a regra. Diante desse paradoxo, inverte completamente seus critérios diagnósticos: aqueles antes considerados doentes são libertados, enquanto pessoas tidas como perfeitamente equilibradas passam a ser classificadas como anormais. Entretanto, ao buscar indivíduos que correspondessem a esse ideal de equilíbrio absoluto, Bacamarte percebe que tal condição praticamente não existia. O resultado? Considerando-se, segundo seus próprios critérios, o único verdadeiramente equilibrado, o médico interna a si mesmo, tornando-se, no final, vítima da lógica classificatória que ele próprio havia criado.
Mais do que uma sátira à psiquiatria de seu tempo, Machado de Assis constrói uma reflexão sobre os riscos inerentes às classificações, convidando-nos a refletir: com base em quais critérios criamos sentidos sobre aquilo que é normal ou patológico?
Se a realidade é construída por meio de significados compartilhados, também o são as ideias que elaboramos sobre aquilo que consideramos normal, anormal, saudável ou patológico. Longe de constituírem categorias naturais ou universais, essas distinções refletem valores, expectativas e formas historicamente construídas de compreender o comportamento humano.
A patologização da vida: o novo normal na contemporaneidade?
É nesse cenário que os diagnósticos do campo da saúde mental assumem um papel central. Elaborados para orientar a prática clínica, favorecer a comunicação entre profissionais, subsidiar pesquisas e direcionar intervenções terapêuticas, constituem ferramentas fundamentais para o cuidado em saúde mental. Ao mesmo tempo, participam da construção de significados sobre o comportamento humano, contribuindo para delimitar aquilo que, em determinado contexto histórico e social, é compreendido como normal ou patológico.
Como vimos, porém, essas categorias não permanecem restritas ao campo especializado.
Pessoas que, naturalmente, não dispõem do conhecimento técnico que orienta sua utilização clínica apropriam-se crescentemente desse vocabulário para interpretar emoções, comportamentos, relações e modos de existir.
Nessa direção, quanto mais categorias diagnósticas passam a integrar o repertório cotidiano de significados, maior pode ser a tendência de recorrer a elas para interpretar experiências ordinárias, mesmo quando estas não correspondem, necessariamente, aos referenciais que orientam seu uso no campo da saúde mental.
Nesse movimento, aquilo que inicialmente foi concebido para orientar o cuidado passa, pouco a pouco, a organizar a maneira como compreendemos a experiência humana.
É nesse movimento que situo a reflexão sobre a patologização da vida. O problema não reside na existência dos diagnósticos e não se trata aqui de questionar sua importância. A questão emerge quando categorias construídas para orientar o cuidado passam a ocupar um lugar privilegiado na interpretação das vivências cotidianas, enquadrando e limitando a complexidade da experiência humana aos referenciais produzidos no campo da saúde mental.
Diante da complexidade das emoções, elas oferecem explicações; diante da ambiguidade do sofrimento, oferecem classificações; diante da incerteza, oferecem sentidos.
É justamente aí que emerge o principal risco. Quanto maior a necessidade de compreender, maior pode ser a tendência de traduzir experiências singulares em categorias já conhecidas, como se todo comportamento, necessariamente, correspondesse a uma classificação.
Talvez seja justamente aí que O Alienista permaneça tão atual. Simão Bacamarte não errou por buscar compreender a loucura. Sua inquietação começou quando a necessidade de classificar passou a orientar sua maneira de compreender todos os aspectos da existência.
Diante disso, permanece uma pergunta: será que, ao incorporarmos cada vez mais a linguagem diagnóstica ao nosso cotidiano, também não corremos o risco de transformar uma ferramenta de cuidado em uma forma de aprisionar, ainda que involuntariamente, nós mesmos?
A proposta de expansão subjetiva
Ao longo desta reflexão, observamos que nomeamos, classificamos e produzimos categorias porque precisamos tornar o mundo compreensível. Não há nada de equivocado nesse movimento. Pelo contrário, é ele que possibilita organizar a experiência, compartilhar significados e construir a própria vida em sociedade.
O risco surge quando esquecemos que aquilo que construímos para compreender o mundo passa a determinar os limites do nosso próprio mundo. Quando as categorias deixam de ser representações da experiência para converterem-se na própria experiência. Quando os conceitos passam a valer mais do que aquilo que pretendem representar.
E talvez a patologização da vida revele, em última instância, uma dificuldade contemporânea de sustentar aquilo que escapa às nossas formas de conhecer. A ambiguidade, a contradição, a imprevisibilidade e o inacabamento tornam-se incômodos quando esperamos que toda experiência possa ser traduzida em categorias estáveis.
Cabe aqui reiterar que os diagnósticos psiquiátricos são categorias historicamente construídas para uma finalidade específica: favorecer o cuidado em saúde mental. Sua importância reside precisamente nesse propósito, e não em oferecer definições capazes de explicar, por si só, a complexidade da experiência humana.
A experiência humana é plural, dinâmica e atravessada por histórias, relações, afetos, contextos, contradições e múltiplos sentidos. Nem toda experiência corresponde a um diagnóstico e, mesmo quando um diagnóstico existe, ele diz respeito a uma dimensão da vida do sujeito, jamais à sua totalidade. Nenhuma categoria é capaz de abarcar integralmente aquilo que somos.
É a partir daí que proponho a ideia de expansão subjetiva.
“Despatologizar, desde essa perspectiva, é afirmar o direito à complexidade, à ambiguidade e à invenção de si, resistindo aos enquadramentos redutores que capturam a experiência humana em esquemas predefinidos.” (Macedo, Ianni, 2025)
A expansão subjetiva constitui menos uma resposta do que uma postura ética diante da existência. Não se trata de rejeitar as classificações psicopatológicas ou negar o sofrimento, mas questionar sua apropriação acrítica como verdades sobre o ser, afirmando o direito à complexidade, à ambiguidade e à invenção de si.
Trata-se de um convite para despatologizar a vida. Isto é, um convite para habitarmos a complexidade das nossas experiências, sem a urgência de reduzi-las.
Com isso, ampliar os modos de existir e de atribuir sentido à própria experiência para além de termos diagnósticos, sustentando a pluralidade das expressões subjetivas como potência, e não como desvio.
“Talvez o maior gesto de resistência hoje seja justamente este: recusar a pressa de nomear, sustentar o silêncio quando ele for fértil e continuar interrogando os sentidos atribuídos àquilo que chamamos de ‘normal’.” (Macedo, 2025)
Que possamos relembrar: nenhuma categoria é capaz de conter, integralmente, a potência, a singularidade e a permanente transformação da experiência humana.
Nomear é necessário; limitar, jamais. Vamos juntos e, nessa direção, (re)existir?
Referência
Santos de Macedo, I. (2025). La patologización de la vida: ensayo a favor de la expansión subjetiva. Cuadernos Universitarios, 18, 39–52.
https://revistas.ucasal.edu.ar/index.php/CU/article/view/713/746












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