Heloísa Almeida explica que o conceito de masculinidade é algo complexo e diverso e que mudanças sociais não devem ser consideradas ameaças ao gênero masculino

  Publicado: 25/02/2026 às 7:39
Por  - Jornal da USP

Apesar da ideia equivocada de “masculinidade tóxica”, alguns comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta às conquistas do feminismo Imagem: Freepik

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Um estudo divulgado pela revista Nature definiu diversos indicadores da chamada “masculinidade tóxica” em homens heterossexuais, que incluem sexismo, conduta violenta e preconceito contra outras sexualidades. Porém, o estudo descobriu que a masculinidade não é necessariamente um aspecto problemático entre os homens. Heloísa Almeida, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica que o termo pode ser problemático.

“No campo da antropologia, esse termo “masculinidade tóxica” não é muito utilizado, porque é um termo avaliativo, que pressupõe a existência de uma normatividade e uma masculinidade boa, oposta à “masculinidade tóxica”. Na realidade, quando se estuda gênero, é abordado tanto as masculinidades quanto as feminilidades, como o que é ser uma mulher ou o que é ser um homem socialmente. Hoje em dia nós também temos novas questões de gênero, como, por exemplo, as pessoas trans e as pessoas não binárias, que também estão no nosso escopo do campo dos estudos de gênero. Cada época, cada sociedade, cada período histórico tem construções sobre o que é uma masculinidade ideal, uma feminilidade ideal, e o que tem sido observado nos últimos tempos é que não existe uma masculinidade ou um modo de ser homem, porque a gente pensa sempre o gênero atravessado por outros marcadores sociais da diferença.”

Comportamentos violentos associados à masculinidade

Heloísa ressalta que, apesar da ideia equivocada de “masculinidade tóxica”, alguns comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta às conquistas do feminismo. “Das pesquisas que nós temos sobre violência, seja violência doméstica ou contra mulheres em geral, a gente percebe que, quando as mulheres começam a ganhar um pouco mais de direitos, essa violência, no início, aumenta. É uma relação que os homens sentem, de algum modo, ameaçados por novas formas de poder e pelos direitos das mulheres. Na violência doméstica, por exemplo, se a esposa começa a ganhar um pouco mais do que o marido, ele começa a ficar violento. É uma masculinidade muito frágil e que se sente ameaçada por qualquer coisa, resultando nessa violência.”

“Se a gente quer melhorar a violência de gênero, a gente tem que falar de gênero na escola, com as crianças mais novas. O modo, por exemplo, que a gente produz a violência é uma masculinidade bastante convencional, que é, por exemplo, o menino chega na escola e chora, e o pai vira para ele e fala: ‘menino não chora! engole o choro!’ Ou o menino chega em casa, triste, e diz que alguém lhe bateu, e as pessoas em volta falam: bate de volta! Esse comportamento é uma forma de ensinar uma masculinidade que determina que o menino não pode chorar ou ter sentimentos, mas que ele pode bater. Se ele ficar infeliz com alguma coisa ou se ele se sentir ameaçado, a reação dele será violenta. Esses ensinamentos sempre foram muito naturalizados na sociedade brasileira”, explica Heloísa.

As mudanças da sociedade não devem ser consideradas ameaças

A professora explica que as mudanças da sociedade não devem ser consideradas ameaças à masculinidade, mas atitudes que promovem a igualdade. “Esse tipo de masculinidade que pode ser violenta e agressiva é a responsável por isso que a gente está vendo no Brasil: o aumento de feminicídios, da violência contra as mulheres, crianças, idosos e pessoas LGBT+. Isso vem de uma masculinidade que se sente muito questionada no mundo de hoje, porque a gente tem leis que favorecem os direitos das mulheres, que promovem a igualdade e que criminalizam esse tipo de violência, mas eles, com isso, se sentem atingidos. Quando, na verdade, a gente está só tentando colocar uma situação de maior igualdade na sociedade”, finaliza a professora.

*Sob a supervisão de Paulo Capuzzo


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fonte:  https://jornal.usp.br/radio-usp/em-que-momento-a-masculinidade-passa-a-ser-toxica/

 

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Marjorie Estiano: 'O privilegiado tem desinteresse em mudar. A violência também se ampara na ignorância'

Sem fazer concessões ao conforto narrativo, Marjorie Estiano, estrela da capa digital de Janeiro de Marie Claire, escolhe papéis que expõem violências de gênero e falhas institucionais, transformando a atuação em leitura crítica do nosso tempo e exigindo posicionamento e mudança – do público e de si mesma

Por 
Camila Cetrone
, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

 

Marjorie Estiano é estrela da capa digital de Marie Claire. Vestido, meias e sapatos Prada; shorts Intimissimi; earcuff Crayons
Marjorie Estiano é estrela da capa digital de Marie Claire. Vestido, meias e sapatos Prada; shorts Intimissimi; earcuff Crayons — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

 

Interpretar Ângela Diniz hoje é, antes de tudo, um gesto político. Não apenas por revisitar um dos feminicídios mais emblemáticos da história brasileira, mas porque aquela violência dos anos 1970 continua ativa e operante – com novos nomes e cenários, mas a mesma estrutura. Em um país que insiste em relativizar crimes contra mulheres, o trabalho de Marjorie Estiano ultrapassa a atuação: é também leitura crítica, enfrentamento do patriarcado e recusa ao silêncio.

Essa abordagem se evidencia na escolha de papéis femininos em fricção com tensões estruturais, como nas séries Fim (Globoplay, 2023) Sob Pressão (Globo/Conspiração Filmes, 2017), pela qual foi indicada ao Emmy de Melhor Atriz, e nos longas de horror As Boas ManeirasAbraço de Mãe e Enterre Seus Mortos.

Marjorie Estiano usa vestido Charth; sutiã Gucci; colar, pingente e earcuff Crayons — Foto: Hudson Rennan (FSAG)
Vestido Neriage, R$ 3.584; tricô, R$ 798 e shorts, R$ 1.198, Animale.; earcuff, R$ 770, colar R$ 2.370, corrente R$ 4.370 e pingente R$ 897, Crayons — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

 

O conjunto de experiências parece tê-la preparado para sustentar a complexidade política e histórica de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (HBO/Conspiração Filmes, 2025). Em seis capítulos, a série remonta a história da socialite assassinada em 1976 na Praia dos Ossos, em Búzios. Doca Street, seu namorado, justificou o crime com a tese da legítima defesa da honra – argumento que atravessou o sistema jurídico brasileiro por décadas e só foi invalidado pelo Supremo Tribunal Federal em 2023.

“Tenho imensa satisfação em ver que o audiovisual pode ampliar o debate sobre feminicídio. Hoje não existe o meio-termo: ou você é um agente da violência ou luta contra ela, para fora e para dentro, em você e dos lados”, diz Estiano, que, ao dar corpo à narrativa, convoca memória, justiça e responsabilidade coletiva.

+ Ângela Diniz: o figurino que conta a vida de uma mulher que desafiou os padrões sociais

Jaqueta Burberry, preço sob consulta; corrente, R$ 4.370, Crayons; shorts, R$ 259, Intimissimi; meias Prada, preço sob consulta — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

 

Na semana em que o episódio do feminicídio foi ao ar, em dezembro, numa coincidência atroz, o Brasil foi palco de casos de ampla repercussão. Foram assassinadas Isabele Gomes de Macedo e os quatro filhos, dentro da própria casa, no Recife; Allane de Souza Pedrotti Matos Layse Costa Pinheiros, na escola em que trabalhavam, no Rio de Janeiro; e Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada pela Marginal Pinheiros, em São Paulo.

“O feminicídio é só a ponta do iceberg”, observa Estiano. “As violências contra mulheres acontecem desde o nascimento e as vítimas são absolutamente descredibilizadas. Só com estudo e autocrítica dá para perceber como o patriarcado se infiltra nas nossas relações, até nas mais íntimas.”

Para construir sua Ângela, a atriz fez um mergulho psicanalítico no Brasil dos anos 1970 e se debruçou sob pensadoras como Simone de BeauvoirLélia GonzalezAgnès VardaAnnie Ernaux e Djamila Ribeiro. “Entendi como o patriarcado ainda se manifesta, tanto na sociedade quanto em mim. Nascemos dentro desse sistema e naturalizamos muitos comportamentos. Precisamos aceitar que somos machistas e que não estamos tão distantes do agressor. Todos nós, sem exceção.”


Vestido Charth, R$ 9.398; sutiã Gucci, preço sob consulta; corrente, R$ 4.370; pingente, R$ 897 e earcuff Crayons; sapatos Miu Miu e meias Prada, preços sob consulta — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

Questionada sobre seu machismo internalizado, responde com um exemplo: “Não gosto de usar sutiã, mas é comum que o faça em certas situações para não me sentir exposta”.

A vigilância se estende ao comportamento: ao se perceber calorosa e sorridente, reforça o tom fraterno para se proteger de abordagens indesejadas. Na psicologia, essa modulação de comportamento é conhecida como hipervigilância de gênero.

“Pensava que, assim, estaria mais protegida de assédios, como quando olham para seu peito ou órgão genital ao falar com você. Os homens não têm pudor em exercer essa invasão porque é natural para eles acessar esse corpo, fisicamente ou pelo olhar. Agora, sei que a transparência da minha roupa é um ato político e isso me ampara.”
Vestido R$ 1.119,20; calça, R$1.199,20, e tricô, R$ 1.263,20, Francesca; earcuff; R$ 770, corrente, R$ 4.370 e pingente, R$ 1.770, Crayons; sapatos Prada, preço sob consulta — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

Vestir-se, portanto, é também marcar uma posição. “Nunca respeitei as regras da moda. Sempre me interessei em subvertê-las. Uso do avesso, amarro, bordo, rasgo e escrevo nas roupas.” Ela fala também sobre se perceber mais colorida com o passar dos anos – não só na moda, mas na casa, que tem banheiro mostarda e roxo; cozinha azul e sofá verde.

A expansão cromática é um contraponto ao início da carreira, quando interpretou a rebelde Natasha, de Malhação (2003-2006, Globo), confinada ao preto. “Fui muito colocada como roqueira, depois romântica e doce, e isso me incomodava. Não porque não me identificasse com esses elementos, mas porque a repetição me reduzia. Enquadrar é aprisionar. É uma negociação constante sair do quadrado.”

Tricô, minissaia, estola, meias e sapatos Miu Miu, preços sob consulta; shorts Intimissimi, R$ 259; corrente, R$ 4.370 e pingente R$ 897, Crayons — Foto: Hudson Rennan (FSAG)

Habeas Corpus (Netflix, sem data de estreia) marca um novo deslocamento, em que interpreta uma advogada envolvida na reversão da condenação de um homem inocente. Ao explorar os mecanismos e as falhas da justiça, a série conversa indiretamente com Ângela Diniz – e, para Estiano, com todo o tecido social.

“Conhecer a estrutura da sociedade é fundamental para integrá-la conscientes de que somos parte tanto do problema quanto da solução. Mas o deslocamento não vem de graça. Mudar comportamento e mentalidade requer esforço, e o privilegiado tem desinteresse em mudar algo que não enxerga como desvantajoso. A violência também se ampara na ignorância.”

Em meio a projetos que exigem percursos densos, Estiano busca na natureza um contrapeso ao excesso. “Quando a demanda sobrecarrega, vou para a natureza. Só ela drena minha ansiedade, dá conta da minha cabeça e reconecta meu corpo.” É desse retorno ao corpo que ela retira fôlego para seguir em ação – dentro e fora de cena.

Blusa Harpa, R$ 830; sutiã Intimissimi; R$ 329; earcuff, R$ 770, corrente, R$ 4.370 e pingente, R$ 897, Crayons — Foto: Hudson Rennan (FSAG)
 

Fotos HUDSON RENNAN (FSAG)
Direção criativa ROBERTA CARDOSO
Direção de moda LARISSA LUCCHESE
Beleza SUY ABREU (BELTRAME)
Set designer RICARDO ISHIHAMA
Produção executiva VANDECA ZIMMERMANN

 

fonte: https://revistamarieclaire.globo.com/cultura/noticia/2026/01/marjorie-estiano-o-privilegiado-tem-desinteresse-em-mudar-a-violencia-tambem-se-ampara-na-ignorancia.ghtml

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“Na universidade, a desigualdade ainda existe”, afirma vice-reitora da USP

Em entrevista à revista Marie Claire, a vice-reitora Liedi Lédi Bariani Bernucci defende ações para ampliar a presença feminina nas áreas de ciência e engenharia


A vice-reitora Liedi Bernucci (à esquerda) e a professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, na cerimônia de posse da nova gestão da Reitoria, em janeiro de 2026 – Foto: Cecilia Bastos/USP Imagens

 

A vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani Bernucci, concedeu entrevista à revista Marie Claire, publicada no dia 11 de fevereiro, em que falou sobre os principais desafios da sua gestão, ao lado do reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado. Leia, a seguir, à íntegra do texto.

“Diziam que eu ocupava uma ‘vaga perdida'”

Engenheira civil e primeira mulher a dirigir a Poli, Liedi Bernucci assume a vice-reitoria da USP em um momento de tensão entre universidade e sociedade, relembra a misoginia enfrentada na formação e defende ações concretas para acelerar a presença feminina nas áreas de ciência e engenharia: ‘A ascensão é lenta porque muitas vezes somos impedidas’

Nos próximos quatro anos, a cadeira da vice-reitoria da Universidade de São Paulo (USP), a maior universidade da América Latina, será ocupada por Liedi Légi Bariani Bernucci. A engenheira civil assume o 2º maior posto da gestão ao lado do novo reitor, o professor e médico Aluísio Augusto Cotrim Segurado.

Em 92 anos de história, a professora é a quarta mulher a alcançar um posto na reitoria — depois das vice-reitoras Myriam Krasilchik (1994–1998) e Maria Arminda do Nascimento Arruda (2022 – 2026) e da reitora Suely Vilela (2005 – 2009), atual Secretária de Inovação e Desenvolvimento de Ribeirão Preto. Em 2018, Bernucci tornou-se a primeira mulher diretora da Escola Politécnica (Poli).

A dupla assume em um momento desafiador para a instituição, que reivindica a autonomia em meio a um sentimento maior de hostilidade em relação à ciência e às instituições de pesquisa por parte da sociedade civil — com quem a reitoria busca se aproximar.

“A sociedade precisa saber onde a universidade se encaixa e o que fez para ter orgulho dela”, diz Bernucci em entrevista a Marie Claire, em seu gabinete na Reitoria da USP. “O trabalho acadêmico impacta diretamente o cotidiano das pessoas, do transporte urbano aos sistemas de alerta de chuva, passando pelo controle de enchentes. Sem o conhecimento produzido na universidade, muitos desses problemas seriam ainda maiores.”

A engenheira entende que o distanciamento da sociedade civil é uma consequência da imagem de sucateamento do ensino superior no Brasil — principalmente das universidades públicas — e do crescimento de manifestações negacionistas, sobretudo durante a pandemia. Por outro lado, reconhece que “a comunidade científica precisa se comunicar melhor” e se preocupa com o discurso que, segundo ela, visa rechaçar a importância do ensino superior no país.

“Quando alguém se promove porque conseguiu enriquecer tendo abandonado a universidade, como se isso fosse um caminho para todos, é muito ruim. Você começa a colocar em xeque o papel da ciência e da universidade para a sociedade e [a importância] de formar pessoas que no futuro estarão servindo ao mundo do trabalho e portanto, a sociedade”, diz.


Liedi Bernucci, vice-reitora da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Quem é Liedi Bernucci

Liedi Bernucci é engenheira civil, mestre em Geotecnia e doutora em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica da USP, com parte da formação realizada no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça. Livre-docente e professora titular desde 2006, foi chefe do Departamento de Engenharia de Transportes e presidiu o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entre 2022 e 2024.

Também integra ou já fez parte de conselhos estratégicos ligados à ciência, inovação e indústria, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. Desde 2021, ocupa a Cadeira 9 da Academia Nacional de Engenharia (ANE).

É referência nas áreas de infraestrutura e transporte, e tem trabalhos publicados para capacitar a metodologia de ensino para as próximas geração de engenheiros. Em paralelo com a carreira acadêmica, coordenou projetos de pesquisa financiados por órgão, agências e empresas públicas e privadas. Mais recentemente, em 2021, esteve envolvida no Projeto Inspire, que produziu mais de mil ventiladores pulmonares junto da Marinha.

Bernucci nasceu em 1958 no município de Jarinu, interior de São Paulo, e foi estudante de escola pública. “Tenho uma família que nunca fez qualquer diferença eu ser mulher, o que me deu uma fortaleza interna”, diz. Quando tomou gosto pela engenharia, a família recebeu com naturalidade e a apoiou. “Reconheço que, infelizmente, não são todas que podem contar com essa sorte”.

Essa base a preparou para o ambiente majoritariamente masculino que encontraria no fim dos anos 1970, quando havia somente 4% de mulheres no curso de Engenharia Civil: “Foi um choque quando entrei numa sala de aula”.

Bernucci lembra de manifestações “muito grosseiras” de misoginia nos corredores da Poli — que, ela conta, vinham mais dos professores do que dos alunos. A que mais se recorda ouviu de um professor que chamava a ocupação de mulheres no curso de “vagas perdidas, como se fossem roubadas” e dizia que elas queriam fazer engenharia “só para arrumar um marido e depois dar o diploma para o filho fazer aviãozinho”. A violência a fortaleceu. “Por incrível que pareça, essas falas grosseiras despertavam em mim justamente o contrário. Falava que comigo seria diferente.”

Segundo a mais recente edição do Anuário Estatístico da USP, a graduação ainda registra leve maioria de alunos homens, mas elas já são maioria em cursos de pós-graduação: são 20.018 mulheres e 19.034 homens. O cenário geral melhorou, mas menos que o necessário nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), que seguem com baixa ocupação de mulheres. O problema é global: a Unesco aponta que só 35% dos estudantes da área são mulheres. No Brasil, esse percentual é menor, cerca de 20%.

“Na universidade, a desigualdade ainda existe: há menos docentes mulheres do que homens. A ascensão na carreira é lenta, muitas vezes porque elas são impedidas. Se deixarmos que isso aconteça ‘naturalmente’, a igualdade levará muitos anos para ser alcançada. Por isso, é preciso um trabalho cotidiano, em todas as frentes”, diz.

“Sempre que a capacidade de uma mulher é colocada em xeque, é preciso responder. Só acelerando esse processo, com oportunidades concretas, permite um avanço na direção da equidade.”

Em 1987, quando concluiu o mestrado sanduíche na Suíça com orientação do físico Franco Balduzzi — inspiração de Bernucci para adotar uma postura ética de diversidade – lembra que a situação não era melhor fora do país. “Naquela época, a Suíça era mais machista do que o Brasil. Sofri preconceitos por ser uma mulher latina, vinda de um país dito de ‘terceiro mundo’. Meu professor era sensível à causa e apoiava muito as mulheres”, lembra.

Ao voltar ao Brasil, assumiu o cargo de professora da Politécnica — e gradualmente viu outras mulheres sendo puxadas para cima, construindo um grupo de apoio que fez falta quando era ela própria uma estudante. “Quando volto ao meu departamento de origem hoje, vejo tantas professoras, tantas jovens, tantas alunas, trabalhando no que eu comecei. Foi uma responsabilidade enorme, mas gratificante. Deu frutos. Precisamos dizer às meninas que as portas estão abertas e que ali é o lugar dela.”

Além da criação de oportunidades para a ascensão de mulheres, o programa apresentado pela nova reitoria se compromete com a equidade de gênero, o combate à violência no campus e apoio à carreira de mulheres acadêmicas — com a retomada do Escritório USP Mulheres (que promove iniciativas de equidade e enfrentamento à violência de gênero), o fortalecimento de programas de acolhimento e a incorporação das perspectivas de gênero, raça e deficiência nas normas da universidade.

O assédio sexual sistemático, outra barreira que impede a permanência e ascensão de mulheres, é outra minúcia em vista. Uma apuração do Jornal do Campus, que ouviu alunas e professoras, atribui o alto número de subnotificação a dificuldade de fazer a denúncia por falta de acesso aos canais corretos, impunidade e medo de retaliação. Também há queixa de insuficiência das políticas institucionais, mesmo com a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), em 2022, e do Sistema USP de Acolhimento.

Bernucci diz que os canais existem e funcionam, mas “é preciso que as pessoas tenham confiança de que alguém vai se preocupar quando fizerem a denúncia”.

“Muitas vezes a vítima não tem materialidade. O assediador sabe se colocar de um jeito oculto ou dizer que foi interpretação. É preciso que as mulheres saibam que este canal é confiável e que mais pessoas comecem a analisar o comportamento do assediador. Um bom observador vai entender que não é algo tirado da cabeça de alguém”, afirma.

O futuro da ciência

Nos últimos dez anos, o Brasil vem registrando queda nas inscrições para vestibulares, tanto em instituições particulares como nas públicas. Entre 2019 e 2020, também houve queda no número de matrículas em universidades federais. Em 2023 houve uma nova redução, dessa vez no volume de inscrições e participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): apenas 2,67 milhões de estudantes realizaram todas as etapas da prova. Em 2016, esse número era de 5,8 milhões.

Isso preocupa Bernucci, que tem interesse principalmente na resolução de problemas graves e urgentes, como a contenção das mudanças climáticas. “O risco do descrédito na ciência é enorme. Vamos precisar de gente cada vez mais capacitada para enfrentar os problemas do planeta. Como se resolve esse problema sem ciência? Não é ‘Eureka!, descobri o que fazer’. Isso não existe.”

Por meio desse diálogo, a expectativa é, sobretudo, despertar novamente o interesse dos estudantes. Para isso, afirma que as dinâmicas de ensino precisam mudar, embora ainda exista resistência de parte dos professores em relação à geração Z e a outros pontos de modernização, como o uso ético da Inteligência Artificial (IA), por exemplo.

“Não reclamo da geração Z. Acho que ela me traz uma sobrevida, porque me obriga a me reinventar para estar em sala de aula e motivá-la. Preciso levar algo que interesse a esses jovens e que eles sintam que podem solucionar. Esse choque deveria ser fonte de motivação para os docentes. Há um saudosismo que pode ser positivo, mas ficar só na nostalgia impede de enxergar uma geração nova, desafiadora e motivante”, afirma.


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