A fome é uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade

 

Publicado: 30/07/2026 às 7:51 - Jornal da USP
Texto: Ivanir Ferreira

 


A fome é resultado de processos históricos, políticos e sociais e provoca impactos profundos na saúde psíquica de quem a vivencia – Foto: Abelardo da Hora/Flickr/Águila Comunicação

Ao investigar a experiência de pessoas em situação de insegurança alimentar no período em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, em 2022, e deixou a lista em 2024, uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP propõe que a fome seja compreendida para além da privação de alimentos. O estudo aponta que ela é resultado de processos históricos, políticos e sociais, e provoca impactos profundos na saúde psíquica de quem a vivencia.

Júlia Louzada – Foto: Arquivo pessoal

Segundo a psicóloga e psicanalista Júlia Louzada, autora da dissertação de mestrado Fome: do tabu ao mal-estar, orientada pela professora Miriam Debieux Rosa, do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL) do IP, “a fome restringe a vida somente à busca pela sobrevivência. A ausência de comida funciona como um sintoma social que desperta sentimentos humanos que refletem como processamos o mundo, como angústia, vergonha, culpa e horror”.

A pesquisa articula conceitos da psicanálise de Sigmund Freud, como tabu e mal-estar, às reflexões de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. O trabalho também parte da experiência da pesquisadora como voluntária em cozinhas populares e solidárias de São Paulo durante a pandemia de covid-19, quando acompanhou de perto os efeitos da insegurança alimentar sobre a população.

Naquele período, cerca de 33,1 milhões de brasileiros viviam em situação de fome e aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). “Isso significa que, naquele momento, cerca de dois terços da população brasileira não tinham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade”, destaca Júlia.  Foi nessa época também que a “fila do osso” tornou-se um símbolo da fome e da crise econômica no Brasil, ganhando enorme repercussão nacional por volta de 2021 e 2022. Pessoas em situação de extrema vulnerabilidade aguardavam a distribuição de restos de ossos e carcaças bovinas descartados por açougues, frigoríficos e supermercados para garantir alguma forma de alimentação.

Vergonha e desesperança

Para a professora Miriam, sob a perspectiva da psicanálise, o sofrimento associado à fome é também sociopolítico, já que a insegurança alimentar resulta de formas de organização social que afetam diretamente a experiência dos indivíduos. “A fome representa uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade”, argumenta.

Miriam Debieux Rosa – Foto: Acervo pessoal

Em sua opinião, a privação alimentar fragiliza os vínculos sociais, compromete a confiança no outro, reduz as perspectivas de futuro e limita a capacidade de projetar desejos para além da sobrevivência imediata. Também enfraquece o sentimento de pertencimento e reconhecimento do mundo, expondo quem vive essa realidade a diferentes formas de desamparo, sejam elas materiais, sociais ou subjetivas.

“A culpabilização e a desumanização das pessoas em situação de fome favorecem o silenciamento sobre essa experiência, o que dificulta que elas expressem suas demandas, afirmem seus desejos ou se reconheçam como sujeitos de direitos e de participação política”, explica Mirian.

Panela que alimenta o corpo e escuta que acolhe a dor

Durante o agravamento da pobreza e da insegurança alimentar na pandemia de covid-19, as cozinhas solidárias ativas em bairros de São Paulo consolidaram-se como espaços cruciais de acolhimento e resistência social. Para Júlia, a vivência que teve nesse espaço também redefiniu os parâmetros da metodologia científica de sua pesquisa, transformando o trabalho comunitário em um rico campo de observação participante.

Em vez de aplicar questionários tradicionais ou realizar entrevistas formais, ela se integrou diretamente à rotina de preparo e distribuição de refeições. “Não se podia ocupar simultaneamente a posição de observadora e de cozinheira”, relata Júlia.

No calor do fogão, o diálogo e a escuta qualificada ocorriam de forma orgânica e coletiva durante o trabalho manual. Essa imersão permitiu captar nuances da vulnerabilidade social que dificilmente seriam registradas em abordagens tradicionais de consultório. “Durante o preparo do alimento, a experiência da fome raramente era verbalizada de forma direta; manifestava-se de maneira sutil, entre silêncios, recusas e memórias fragmentadas dos frequentadores”, explica a pesquisadora.

Muito além do prato de comida

“Nas cozinhas, enquanto o fogo e as panelas garantiam comida para o sustento físico, os encontros e as conversas abriam espaço para que os frequentadores pudessem digerir e elaborar, juntos, o próprio sofrimento”, relata Júlia. Relatos espontâneos de quem buscava um prato de comida revelavam que o local entregava mais do que alimento: “A gente sente vergonha de falar que está com fome”, desabafou um frequentador. “Aqui a gente não vem só pegar o prato, a gente conversa, aprende, se fortalece”, destacou outro.

Júlia junto com voluntários na lida das cozinhas solidárias – Foto: Acervo pessoal

De acordo com a pesquisadora, a vergonha funciona como uma barreira psicológica que silencia quem passa fome. “Ao guardar a dor para si por constrangimento, o indivíduo não consegue dar nome ao que sente [processo que a psicanálise chama de simbolização] e, consequentemente, não consegue enxergar a fome como um problema social e político que exige direitos. Em vez de perceber a fome como o reflexo de uma crise estrutural, a pessoa tende a internalizar o sofrimento”, diz.

A vergonha se entrelaça com outros “sentimentos profundos que paralisam o sujeito, como a culpa individual pela própria miséria, a angústia constante da escassez e o horror de não ter o que comer”, relata Júlia.

Durante a distribuição das refeições, os voluntários ouviam relatos de mulheres vítimas de violência doméstica, jovens LGBTQIAPN+ que enfrentavam o isolamento e a discriminação, mães preocupadas com a falta de acesso dos filhos às aulas remotas e famílias divididas por conflitos em torno da vacinação e da política. “As pessoas não chegavam apenas com a necessidade de comer, mas também com demandas de escuta, acolhimento e reconhecimento”, observa a pesquisadora.

Políticas públicas

Segundo a psicóloga, a fome costuma ser tratada apenas como consequência da pobreza ou da falta de acesso aos alimentos, mas em sua opinião, essa abordagem é insuficiente para explicar seus impactos psíquicos em quem é atravessado por essa condição. A pesquisadora argumenta que a fome é produzida historicamente e está relacionada à desigualdade estrutural, ao racismo, à colonialidade, às desigualdades de gênero e a diferentes formas de violência e exclusão social. Nesse sentido, ela deixa de ser apenas um problema biológico para assumir também uma dimensão política e social.

A pesquisadora explica que políticas voltadas apenas ao combate emergencial da fome são insuficientes. Segundo ela, o Estado precisa enfrentar as desigualdades estruturais que produzem a insegurança alimentar e incorporar o sofrimento psíquico das pessoas atingidas às estratégias de cuidado e proteção social.

Para a orientadora da pesquisa, ao reunir teoria psicanalítica, observação participante e a experiência em cozinhas solidárias a pesquisa ampliou a compreensão da fome como um fenômeno que ultrapassa a privação de alimentos. “Reconhecer os impactos subjetivos da insegurança alimentar é fundamental para compreender a dimensão humana desse problema e contribuir para políticas públicas que articulem o direito à alimentação com ações de cuidado, acolhimento e proteção social”, diz.

A dissertação Fome: do tabu ao mal-estar, foi defendida no Instituto de Psicologia (IP) da USP e em breve estará disponível no site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Mais informações: com Júlia Louzada (autora da pesquisa), e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.; Miriam Debieux Rosa (orientadora), e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.