A reportagem é de Erika Rosete, publicada por El País, 28-06-2026. Instituto Humanitas Unisinos - IHU 29/6/2026

Copa do Mundo não é apenas uma celebração; em suas manifestações mais sombrias, eventos internacionais de grande escala como esse frequentemente se tornam terreno fértil para a escalada da violência, em comparação com qualquer outro cenário cotidiano. No México, organizações nacionais e internacionais estimam que a violência doméstica durante esta Copa do Mundo aumentou entre 26% e 38%, “dependendo se o time do agressor vence ou perde”, segundo dados da ONU Mulheres no México. Essa violência chega a 40% quando há envolvimento de álcool. E todos esses ataques afetam desproporcionalmente mulheres, meninas, meninos e adolescentes. Organizações nacionais e internacionais lançaram diversas campanhas para prevenir e incentivar a denúncia de duas das principais preocupações neste contexto da Copa do Mundoexploração e violência sexual.

As expectativas de cenários mais violentos no país já estão se concretizando. No México, em menos de um mês, pelo menos três incidentes de veículos atropelados durante as comemorações das vitórias da seleção mexicana foram registrados em ChihuahuaBaja California Sur e Zacatecas. Também houve brigas e danos à propriedade pública no monumento do Anjo da Independência, na capital do país, além de ataques amplamente divulgados por torcedores e policiais mexicanos contra o grupo de mães que buscavam seus filhos desaparecidos e protestavam nas ruas de Guadalajara e da Cidade do México.

Eleonora Betaccur, Representante da ONU Mulheres no México, explica que as campanhas "Unidos Contra a Violência Doméstica", lançada em 12 de junho, e "Tolerância Zero: Cartão Azul Contra a Exploração Infantil" são duas das estratégias para prevenir os altos níveis de violência que historicamente ocorrem em todo o mundo durante torneios de futebol e outros eventos. " Temos evidências internacionais que mostram que, no contexto desses megaeventos esportivos, a violência contra mulheres, meninas e adolescentes, bem como a violência doméstica, aumenta", afirma.

Em conjunto com o Secretariado para as Mulheres, a agência da ONU está baseando a primeira dessas campanhas, focada em mulheres, na identificação dos fatores que exacerbam a violência preexistente: consumo de álcool, dificuldade em lidar com as emoções e estresse econômico (especificamente, jogos de azar ou competições que envolvem ganhar ou perder dinheiro em partidas). Embora ainda seja cedo para ver resultados, Betancour afirma: “O Secretariado nos informou que, de fato, as denúncias de abuso estão aumentando”.

A linha direta 079, opção 1, disponível 24 horas por dia, e o número de emergência 911 estão disponíveis para relatar situações de violência. Segundo Betancour, após o término do torneio, em 19 de julho, todas as informações obtidas nos registros de denúncias e agressões serão analisadas para a elaboração de políticas públicas em um futuro próximo. No entanto, existem algumas preocupações atuais: “Acreditamos que as redes sociais estão minimizando a violência e a apresentando como uma piada. Isso nos preocupa”, afirma.

Wendy Figueroa, diretora da Rede Nacional de Abrigos (RNR), que lançou a campanha "Violência contra a mulher não faz parte do jogo" em 26 de maio, juntamente com redes nos Estados Unidos e Canadá, concorda que a normalização da violência não acontece apenas nas redes sociais, mas também na mídia tradicional.

RNR já possui dados preliminares para essa estratégia que elaborou para antes, durante e depois da Copa do Mundo. Até 27 de junho, a Rede havia distribuído aproximadamente 4.800 folhetos informativos nas ruas, entregando-os pessoalmente a mulheres e explicando o objetivo da campanha, as diferentes formas de violência e os serviços de apoio disponíveis. Dos que receberam informações, 5% eram, em sua maioria, homens jovens. E, no total, cerca de 1.600 mulheres receberam orientação direta.

O restante dos dados é devastador: “Durante esse período, identificamos um aumento médio de 50% nas ligações, mensagens de WhatsApp e consultas nas redes sociais. Foi chocante. Mas, além disso, observamos que não são apenas mulheres que nos contatam, mas também meninas e meninos buscando ajuda para proteger suas mães, e adolescentes, principalmente meninas, solicitando orientação para identificar se estão sofrendo violência em casa ou perguntando o que fazer quando alguém está abusando de um membro da família”, explica ela.

Figueroa afirma que diversos incidentes durante a Copa do Mundo já revelaram a gravidade da situação: “O que vimos reafirma a necessidade desta campanha e destaca a violência sexista, a cultura patriarcal, o poder sobre os outros que é amplificado por essas ações em massa. Não se trata apenas dos abusos, do assédio e até da violência física contra repórteres mulheres, dos ataques a jornalistas estrangeiros — as tentativas de agarrá-los e jogá-los no chão mesmo quando expressam sua objeção — e os mexicanos continuam fazendo isso. E a mídia fala em euforia excessiva ou comemoração excessiva, mas não é; é violência, e nomear a violência faz parte da prevenção e da erradicação”, conclui.

Como destaca BetancourFigueroa esclarece: "O que continuamos a deixar bem claro é que o único responsável por qualquer tipo de violência é o agressor."

Além da violência de gênero, há a exploração sexual à qual as mulheres mexicanas, assim como as estrangeiras, ficam expostas durante o torneio. Dados da Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública (SESNSP) indicam que, de janeiro a maio, foram registradas 253 vítimas de tráfico de pessoas no país; 134 delas, ou 53%, são do estado de Quintana Roo, que, aliás, abriga os principais destinos turísticos. Em seguida, vêm o Estado do MéxicoBaja California e a Cidade do México.

Crianças e adolescentes: ainda mais vulneráveis

Em sua declaração sobre a vulnerabilidade de crianças e adolescentes no contexto da Copa do Mundo, e considerando que o México é o segundo destino mais comum no mundo para a exploração sexual de menores, a Rede pelos Direitos da Criança no México (Redim) foi particularmente crítica em relação à situação. “Estamos preocupados que, enquanto a FIFA e os governos promovem narrativas de desenvolvimento, turismo e crescimento econômico, os direitos das crianças continuem praticamente invisíveis no planejamento e na avaliação dos impactos da Copa do Mundo de 2026”, afirmaram em um comunicado divulgado após o fórum “Outro Jogo é Possível: A Copa do Mundo e os Direitos da Criança”, onde dezenas de organizações de todo o país se reuniram em 23 de junho para discutir o assunto.

Além disso, analisaram o contexto das cidades e suas estratégias de segurança. “A experiência demonstra que os megaeventos esportivos não são neutros. Frequentemente, geram profundas transformações urbanas, econômicas e sociais, cujos custos e prejuízos são suportados pelas comunidades locais, particularmente aquelas que enfrentam maior desigualdade e exclusão”, afirmaram.

“Os riscos relacionados ao perfilamento racial, às políticas de imigração restritivas, à criminalização da pobreza e ao deslocamento de pessoas sem-teto nas cidades-sede tornam necessário reforçar o princípio do melhor interesse da criança como base de todas as ações e decisões relacionadas à Copa do Mundo de 2026”, afirmaram.

Outra campanha para prevenir a violência e a exploração de crianças durante a Copa do Mundo, "Informe-se, Empatize e Proteja", lançada por cerca de 20 organizações da sociedade civil e empresas, destaca que sete em cada dez abusadores sexuais de menores são membros da família ou pessoas conhecidas das vítimas; quatro em cada dez meninos e seis em cada dez meninas sofrerão algum tipo de abuso sexual antes dos 18 anos. "Estamos pedindo que o silêncio seja quebrado, instando as pessoas a não minimizarem os sinais de alerta e enfatizando que a proteção das crianças é uma responsabilidade compartilhada que exige a participação de toda a sociedade", afirmam.

Outra estratégia da ONU Mulheres no MéxicoTolerância Zero – Cartão Azul, está sendo implementada pelo governo da Cidade do México e promovida pela Associação de Hotéis da Cidade do México e pela Associação Nacional de Redes Hoteleiras, "para fortalecer a proteção de crianças e adolescentes em hotéis durante a Copa do Mundo". Para essa campanha, segundo eles, o UNICEF ofereceu treinamento ao setor hoteleiro da capital.

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