No contexto do Abril Indígena, convidamos para uma prosa as vozes de Tallon Macuxi, engenheiro eletricista (UFRR), liderança indígena LGBT+ de Roraima e membro do BrCidades; e Inauê Jacintho, graduanda em Engenharia Ambiental pela UFPR e pertencente ao povo indígena Guarani Nhandewa do território Indígena Tekoa ywy dju.
IHU - 5/5/2026
Há séculos ocorre um processo de desrespeito aos ciclos naturais que, conforme descreve André Fernando Baniwa, manifesta-se no rompimento da harmonia ética e prática entre a humanidade e o território e resulta na destruição do Bem Viver que hoje a ciência não indígena chama de crise climática global. Para o povo Baniwa, essa destruição é alimentada por uma lógica de exploração que fragmenta as comunidades e tenta transformar a vida em mercadoria.
Aqui no sul global, essa crise não é algo para o futuro, mas uma realidade que bate à porta através de calores extremos, enchentes, secas e que amplificam as desigualdades já existentes quando encontra a insuficiência do saneamento básico, as moradias precárias e as paupérrimas áreas verdes. Diante desse cenário, o planejamento tradicional das cidades parece patinar nos mesmos erros, quando insiste na mitigação e adaptação climática prioritariamente a partir de tecnologias caras que operam em uma lógica exploratória e fragmentada, que seguem tratando a terra e sua fauna e flora como mera mercadoria. Se as soluções convencionais do capitalismo não dão conta de responder ao desequilíbrio do planeta, cabe a pergunta: para onde devemos olhar? A resposta, já sabemos, provavelmente não virá de um futuro predatório e tecnicista, mas pode estar na ancestralidade das comunidades tradicionais.
No contexto do Abril Indígena, convidamos para uma prosa as vozes de Tallon Macuxi, engenheiro eletricista (UFRR), liderança indígena LGBT+ de Roraima e membro do BrCidades; e Inauê Jacintho, graduanda em Engenharia Ambiental pela UFPR e pertencente ao povo indígena Guarani Nhandewa do território Indígena Tekoa ywy dju.
A seguir, apresento um pouco da nossa conversa articulando mudanças climáticas, a questão da terra e os desafios urbanos.
A entrevista é de Rede BrCidades, enviada por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis a entrevista.
O capitalismo é exploratório em sua natureza e influencia a forma como grande parte do mundo vê o planeta Terra: como um produto a ser explorado para fins lucrativos. Mas, para os povos indígenas, o nosso planeta é um ser vivo no qual nós, seres humanos, coexistimos. Dentro da cosmovisão do seu povo, como você interpreta o que o mundo não indígena chama de “mudanças climáticas”? Seria isso um sinal de que a Terra está 'respondendo' ao rompimento dos ciclos de cuidado e reciprocidade que os povos indígenas mantêm com o território?
“Eu não consigo separar o que vocês chamam de mudanças climáticas de um processo muito mais profundo de desequilíbrio espiritual, territorial e relacional”, diz Inauê. Dialogando com essa visão, para Tallon Macuxi, o que os não-indígenas chamam de "mudanças climáticas" é, na verdade, o desequilíbrio consequente da quebra do pacto de defesa das áreas protegidas e das terras indígenas. Por isso, quando se derruba a mata sem pedir licença, quando se polui o Rio Branco ou o Tacutu, a Terra responde, não em vingança, mas como um organismo que adoece ou, como comenta Inauê, se reorganiza. Nesse processo – ela enfatiza – quem sofre é especialmente quem está em maior vulnerabilidade socioespacial e econômica.
Inauê comenta: “A engenharia ambiental, assim como outras ciências, analisa as mudanças climáticas através dos ciclos biogeoquímicos, da regulação climática e dos serviços ecossistêmicos, o que dialoga diretamente com o que nós já sabemos há muito tempo.” Faz parte das estratégias de superação, segundo ela, a construção de uma engenharia e de uma academia bem orientada que dê a visibilidade necessária por meio de seus gráficos e relatórios, na linguagem que os não-indígenas precisam para ter suas comprovações e, para isso, urge a necessidade de os povos indígenas terem protagonismo, voz e estarem dentro da universidade. Afinal, é a partir do saber e da ciência indígena que, como diversos estudos comprovam, se garante a alta integridade ecológica e o combate ao desmatamento nos territórios originários.
Escutamos falar cada vez mais em justiça climática, mas os povos indígenas já enfrentam a desregulação da natureza há séculos por meio da invasão de seus territórios. Na tua leitura, como a preservação da terra indígena e o modo de vida do seu povo oferecem uma resposta à crise climática que as cidades brasileiras começam a sentir agora?
Esses efeitos já são realidade nas aldeias há décadas, fruto da influência política do garimpo, do latifúndio e de hidrelétricas que desrespeitam consultas públicas. Para Tallon e Inauê, a resposta para a crise que agora asfixia as cidades brasileiras está, principalmente, na autonomia e na demarcação das terras indígenas. "Onde tem terra demarcada, tem floresta em pé e rio limpo", resume Tallon, citando o exemplo dos Macuxi na Raposa Serra do Sol, que mantêm o cerrado e as veredas vivos através do manejo sustentável, com práticas como a roça de coivara com pousio, manejo de quelônios[1] e a pesca respeitando o período de piracema[2]. Isso só é possível por conta do modo de vida Macuxi, que também aparece nos relatos de Inauê como nhandereko (o modo de vida Guarani) que, ainda que exista uma vasta pluralidade entre etnias, compartilha a mesma essência: uma coletividade baseada na continuidade da vida e não na exploração, que implica necessariamente em plantar pensando nas próximas gerações e cuidar da água como algo sagrado, respeitando o tempo da natureza e de todos os seres vivos. Quando um território é invadido por mineração ou agronegócio predatório, não há apenas um impacto ambiental a ser compensado, mas ocorre o colapso de um sistema de equilíbrio e o rompimento das relações que sustentam o clima.
Complementando a visão de Tallon sobre o manejo Macuxi, Inauê traz o olhar da engenharia ambiental para validar o que os povos originários já sabem há milênios: as Terras Indígenas (TIs) funcionam como barreiras vitais contra o desmatamento e possuem alta integridade ecológica. Dados do Ministério dos Povos Indígenas reforçam que essas Terras são as áreas mais preservadas do Brasil, característica que se observa também no restante do mundo. Elas ocupam cerca de 13% do território nacional, mas abrigam a maior biodiversidade e os menores índices de desmatamento, funcionando como barreiras ecológicas vitais contra o aquecimento global. Assim, a demarcação deixa de ser apenas uma questão de direitos fundiários para se tornar uma estratégia central de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. “Enquanto o mundo não-indígena busca soluções tecnológicas complexas e caras, ignora-se que a proteção das TIs é uma das soluções mais eficientes e de baixo custo disponíveis”, diz Inauê.
Portanto, a resposta indígena à crise urbana é um convite à inversão da lógica dominante, já que a justiça climática só será real quando houver o reconhecimento de que a autonomia dos povos originários é o que garante a sustentação do planeta. É preciso garantir o protagonismo indígena e isso significa ouvir e respeitar seus modos de vida que priorizam o equilíbrio e a continuidade de todas as formas de existência.
A Rede BrCidades discute o direito à cidade e a reforma urbana popular. Como você imagina um projeto de país onde a cidade não seja um espaço de exclusão da natureza e dos povos originários, mas sim um lugar que aprenda com a lógica do território indígena? É possível 'aldear' a nossa forma de pensar as cidades?"
Para Inauê e Tallon, "aldear" o pensamento urbano não é um exercício de romantização da aldeia, mas uma inversão radical da lógica de dominação que rege as cidades atuais. Inauê defende que esse processo exige aprender com o modo de vida tradicional para reconectar o ser humano e a natureza, o que a urbanização separou. Na prática da engenharia e do planejamento, isso significa substituir a infraestrutura de controle que canaliza e impermeabiliza, por uma lógica que recupere as margens hídricas, permita a infiltração da água e integre as áreas verdes como partes essenciais e vivas da infraestrutura urbana. Como engenheiro em Boa Vista (RR), Tallon observa que as cidades hoje são construídas aquém da natureza, com asfaltamento excessivo e um saneamento que desrespeita os cursos d'água. Para ele, um projeto de país com justiça urbana deve incorporar os ciclos naturais e o conceito de Bem Viver em todas as esferas, do bairro ao nível federal.
Porém, importante frisar que essa mudança não é apenas técnica e muito menos fragmentada e setorizada, mas é uma mudança de consciência. “É entender que o rio não é um canal de esgoto, a árvore não é um obstáculo e o território não é mercadoria, mas um espaço de vida”, como nos lembra Inauê. Além disso, ambos destacam que aldear a cidade passa pelo reconhecimento de que os povos originários já estão presentes no contexto urbano não porque migraram para a cidade, mas porque a cidade adentrou seus territórios ancestrais. Um novo projeto de cidade exige, portanto, reparação histórica, escuta ativa, valorização do que é coletivo e da continuidade da vida, justiça socioambiental, diálogo de saberes, reconhecimento da ciência indígena e garantia da entrada e permanência indígena nos espaços de poder e de formação. Para Tallon, a resposta não é apenas uma reforma urbana popular, mas uma reforma urbana com alma.
Para concluir essa prosa
Citando novamente André Baniwa, a reconstrução do Bem Viver e do viver bem exige um esforço coletivo para unificar saberes e reafirmar a identidade originária diante de um mundo em desequilíbrio. Essa retomada não é um retorno idílico ao passado, mas uma estratégia política e educativa para garantir que o conhecimento técnico e a ancestralidade caminhem juntos na proteção da vida. No contexto urbano, isso significa aplicar a lógica de continuidade e reciprocidade, transformando o planejamento em um exercício de cura do território e de reparação histórica.
A visão Baniwa dialoga com a nossa prosa, revelando que a saída para o colapso climático nas cidades não virá de inovações tecnológicas complexas, caras e descontextualizadas que não rompam com a lógica capitalista e colonial de exploração. Como mostram as trajetórias de Inauê Jacintho e Tallon Macuxi, a verdadeira tecnologia de sobrevivência reside no reconhecimento e protagonismo da ciência e dos saberes indígenas e na garantia da autonomia de seus territórios, cuja preservação é a estratégia de mitigação mais eficiente e de baixo custo que o país possui, assegurando ciclos hidrológicos e biodiversidade que sustentam, inclusive, a vida urbana. Reconstruir o planejamento das cidades a partir do conceito de Bem Viver exige uma mudança de mentalidade que vá além da técnica e requer reparação histórica. No fundo, como resume Inauê, não se trata apenas de mudar a malha urbana, mas de transformar a forma como entendemos a vida como um todo. É um convite para que a cidade deixe de ser um espaço de exclusão e passe a ser um lugar de coexistência, aprendendo com quem sempre soube habitar o território sem destruí-lo.
Reconstruir o Bem Viver é, em última análise, um convite para abandonarmos a visão da terra como mercadoria e voltarmos a compreendê-la como o espaço sagrado que sustenta o futuro de todas as gerações.
Notas
[1] O manejo de quelônios no Brasil, especialmente na Amazônia, foca na conservação de espécies como tartaruga-da-amazônia, tracajá e iaçá, através do monitoramento reprodutivo e proteção de praias de desova. Saiba mais aqui.
[2] Durante a Piracema é estabelecido o período de defeso, no qual a pesca fica proibida para fins comerciais. Assim, os pescadores e pescadoras artesanais e industriais têm suas atividades temporariamente suspensas. Saiba mais aqui.
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