Autora aposta em protagonistas femininas ativas e narrativas cinematográficas para discutir violência, identidade de gênero e conflitos intergeracionais

 

Publicado: 21/05/2026 às 16:39
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Livro traz protagonismo de mulheres – Foto: Divulgação/Instagram

“Eu falo que o primeiro conto é o das mulheres feias, o terceiro conto é o das mulheres grossas e o quarto conto é o das mulheres mal-amadas”, brinca a autora.

A inspiração para Mulheres Feias veio da tese de doutorado de Anna, realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Intitulada Minha Mãe Não Está na Foto: Investigando a Representação Hegemônica da Mulher Ideal e da Feminista, a tese explora temas como as lutas e reivindicações de mulheres e feministas no Brasil, da década de 1950 até a década de 1980.

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Apesar da inspiração em seu doutorado, em Mulheres Feias Anna ressalta que o livro trata-se de ficção. “Ele não é um estudo antropológico no sentido do estudo acadêmico, mas ao mesmo tempo é uma representação artística, e a representação de um tempo. É a minha interpretação daquilo que eu estudei”, diz Anna. Em relação a seus livros anteriores, ela diz ter se aproximado mais dos feminismos brasileiros e do feminismo negro, além de ter se aproximado também de questões de classe.

O primeiro conto, “Puta Vacilo”, traz questões da maternidade vistas pela sociedade do ponto de vista de alguém que não queria ser mãe, além de tratar de uma questão etarista, que a autora considera assunto com um déficit de discussão nos feminismos.

O segundo conto, “Refoga”, surgiu a partir da leitura do texto Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira, de Lélia Gonzalez. A narrativa destaca a visão de uma mulher que teve de trabalhar desde cedo em trabalhos domésticos, e como ela foi se percebendo no mundo através dos cheiros. Anna pesquisa desde o mestrado os sentidos e afirma que a questão do cheiro chamou sua atenção para escrever o conto.

Como o Esperado” debate a questão de gênero vivida por uma mulher trans que, quando afirma o seu gênero perante o Estado, começa a perceber as violências cotidianas sofridas pelas pessoas que se identificam como mulheres.

Assim como o primeiro conto, “O Último Golpe” também trata de questões de maternidade e etarismo, mas destacando os conflitos intergeracionais entre as mulheres. Nesse conto há a visão de um controle maternal pela ordem, pelos bons costumes e pela preservação da família ideal. O propósito é quebrar o estereótipo da maternidade relacionado ao conceito de “mulher ideal”.

Uma atriz que escreve

Anna Carolina Longano – Foto: ciaruidorosa/Instagram

A primeira coisa em comum entre os contos é o protagonismo das mulheres nas narrativas. Com suas personagens, a autora procura fazer o questionamento de representações tradicionais como, por exemplo, a figura da heroína que “recebe todas as desgraças e todas as bonanças. Então, você vai ver que em todos os contos a passividade não é uma coisa que aparece”, diz Anna.

Outro elemento é a distopia. De acordo com Anna, os contos são violentos devido à realidade. “Porque, se eu estou me baseando no que acontece e aconteceu com as mulheres aqui no Brasil, a violência é meio que uma consequência de toda a violência que a gente passa por ser mulher”, afirma a autora.

Além desses elementos, na orelha do livro, escrita pela professora Verônica Fabrini Machado de Almeida, do Instituto de Artes da Unicamp, o destaque está na característica de os contos serem muito cinematográficos. “Cada conto é como um curta-metragem”, destaca a professora na orelha do livro. Isso Anna relaciona com sua formação em artes cênicas: seus textos são visuais, pois ela pensa a escrita como uma cena.

A autora declara usar do humor ácido para narrar seus contos. Esse humor, no entanto, é utilizado de modo que a figura subalterna seja quem faz a piada e não o contrário. Anna reflete que, para algumas pessoas, o humor de seu livro talvez seja incômodo.

“Quando a gente sofre seguidas violências, tem coisas que pra gente já são constantes. Não é que seja normal. Mas elas são tão constantes que a gente consegue fazer piada delas. Para quem não está acostumado com aquilo, pode ser um choque. ‘Como você está fazendo piada de uma situação dessa?’ Você fala, ‘porque cansei de chorar’”, expõe.

A autora revela que, em seu último livro, principalmente os homens o acharam muito violento, enquanto as mulheres não o acharam violento por se referir a uma realidade com a qual convivem diariamente. Por isso, na nota do novo livro, escrita por Vitor Freire, doutor em Turismo pela USP e companheiro de Anna, há um incentivo para que os homens o leiam, afirmando que os homens podem e devem fazer a leitura.

O livro Para Mulheres Feias, Grossas e Mal-amadas será lançado no dia 23 de maio, na Livraria Patuscada, na zona oeste de São Paulo. A livraria fica na Rua Luís Murat, 40, Pinheiros. O evento acontecerá das 17 às 20 horas e contará com uma sessão de autógrafos. O livro está disponível para pré-venda neste link.

*Sob supervisão de Silvana Salles

 

fonte: https://jornal.usp.br/diversidade/livro-para-mulheres-feias-grossas-e-mal-amadas-brinca-com-estereotipos-sobre-feministas/