Por: Luana de Oliveira | 27 Abril 2026 - IHU - Instituto Humanitas Unisinos

 

O feminicídio é a consequência brutal da típica visão do “macho alfa” que enxerga as mulheres como propriedade, pondo-as como pessoas inferiores aos homens. Vale lembrar que tal crime não acontece nas relações conjugais apenas, mas também aparece nas ruas, nas boates, em bares, esquinas e em qualquer lugar que haja algum vestígio de ódio por mulheres.

Segundo o Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), somente em janeiro de 2026 houve o registro de 947 novos casos de feminicídio no Brasil. O número é 3,49% maior do que os dados de janeiro do ano passado. Mas essa estatística não engloba todas as meninas e mulheres violentadas pela fúria masculina. Segundo a antropóloga, socióloga e militante Analba Brazão Teixeira, “estes dados podem ainda ser subnotificados”, pois “ainda temos um caminho longo para que a tipificação dos feminicídios não seja vinculada apenas aos casos relacionados às relações afetivo-conjugais”.

Sendo parte atuante no Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio, Analba relata que as grandes movimentações da “machosfera” são efetivamente ligadas à extrema-direita. “Estamos em um momento em que há um enorme retrocesso, com o avanço da extrema-direita e sua ideologia que coloca o antifeminismo na linha de frente de seus discursos, personalizando, no intuito de deslegitimar, um movimento social antissistêmico, posicionando-o, falsamente, como produtor de risco para o sistema moral que alegam promover”, afirma Analba em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por WhatsApp.

Ou seja, nesse contexto de violências contra as mulheres também há o agravante da LGBTfobia vinculado a políticas extremistas que disseminam ódio e preconceitos, favorecendo a violência contra lésbicas e pessoas trans. É contra essa corrente que movimentos feministas e sociais lutam para que toda essa estrutura de ódio não prevaleça e que ninguém vire mais uma estatística nas mãos desta masculinidade tóxica e desumana.

Analba Brazão Teixeira (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Analba Brazão Teixeira possui licenciatura em Ciências Sociais (1990), bacharelado em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1993) e mestrado em Ciências Sociais pela mesma instituição. É educadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia.

Confira a entrevista.

IHU – Quais sãos as ações do Levante Feminista Contra o Feminicídio. Como o movimento surgiu?

Analba Brazão Teixeira – A Campanha Nacional Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio surgiu em plena pandemia há cinco anos. Ela decorreu da indignação feminista frente à escalada de assassinatos de mulheres no Brasil. Mobilizamos o país inteiro e, no dia 25-03-2021, a lançamos, numa live nacional, com a presença virtual de mulheres de 21 estados do Brasil. A mobilização foi feita também por meio da divulgação do nosso manifesto, que em menos de 15 dias conseguiu mais de 150 mil assinaturas.

Vivíamos um período, desde a ascensão dos governos Temer e Bolsonaro, em que as políticas e programas estruturantes, de enfrentamento à violência contra as mulheres e do feminicídio, foram desmantelados, além de terem seu orçamento reduzido a quase zero. Apesar do agravamento e do crescimento dos assassinatos de mulheres em todos os estados, os governos – federal, estaduais e municipais – não tomavam medidas efetivas para preveni-los e coibi-los.

Ao contrário, foi justamente neste período que leis e decretos facilitaram o acesso às armas de fogo. O armamento vinha a pretexto de favorecer a autodefesa, usando falácias sobre segurança pública. Mas a aquisição de armas era de baixa avaliação e vinha alinhada a atitudes de menosprezo e desrespeito contra as mulheres por parte do governo Bolsonaro, armando física e verbalmente, inflamaram e naturalizaram a sanha machista da sociedade brasileira.

Desde a criação da Campanha do Levante contra o Feminicídio, o Lesbocídio e o Transfeminicídio, os movimentos feministas e de mulheres se articularam em seus estados com o objetivo de denunciar a gravidade do feminicídio e exigir o compromisso dos governos na criação de políticas públicas que previnam, protejam e acolham as mulheres, além de investigar e punir os agressores.

Nos últimos cinco anos, atuamos frente ao Legislativo, Judiciário, Executivo e à sociedade, que a cada dia tem ficado mais conservadora. Estamos em um momento em que há um enorme retrocesso, com o avanço da extrema-direita e sua ideologia que coloca o antifeminismo na linha de frente de seus discursos, personalizando, no intuito de deslegitimar um movimento social antissistêmico, posicionando-o, falsamente, como produtor de risco para o sistema moral que alegam promover.

Estes discursos de deslegitimação provocam o enfraquecimento na articulação de um pensamento mais crítico diante das desigualdades estruturais, o que certamente reforça o aumento do feminicídio, do lesbocídio e do transfeminicídio.

No que diz respeito às nossas ações diretas, continuamos nas ruas, fazendo as nossas manifestações. Permanecemos monitorando as políticas públicas de enfrentamento à violência e o orçamento público, denunciando a ineficiência das políticas, acompanhando casos exemplares e formalizando denúncias, além de persistirmos nas análises dos pactos de enfrentamento à violência.

Também seguimos buscando visibilidade e transparência nas muitas ações que promovemos nas redes sociais, audiências nos ministérios públicos, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, em várias partes do Brasil. Seguimos também subsidiando e criando observatórios da violência / feminicídios, tais como os de Rondônia e do Rio Grande do Sul, além da Lupa Feminista, uma base de monitoramento de dados com viés interseccional.

IHU – Tivemos o aumento de 33% nos casos de feminicídio no início de 2026 e o crescimento de 34% no total de vítimas entre 2024 e 2025, chegando a 6.904 registros e uma média alarmante de quase seis mulheres mortas por dia no Brasil. Diante disso, quais ações concretas e imediatas a sociedade pode adotar para conter e prevenir essa violência contra as mulheres?

Analba Brazão Teixeira – Infelizmente, além de estarrecedores, estes dados podem ainda ser subnotificados. Ainda temos um caminho longo para que a tipificação dos feminicídios não seja vinculada apenas aos casos relacionados às relações afetivo-conjugais.

Muitas mulheres têm sido assassinadas apenas por serem mulheres no interior dos contextos do tráfico, do crime organizado, do trabalho não supervisionado e uberizado. Além de em outros contextos haver uma subnotificação, nos registros da segurança pública esses casos não são considerados ainda como feminicídios.

Quando surge a pergunta sobre quais ações concretas seriam relevantes para conter este tipo de violência, vejo que precisamos iniciar falando dos muitos desafios para prevenir a violência recorrente.

O primeiro desafio é formar a sociedade para a assimilação de que o debate acerca da violência contra mulheres precisa considerá-la estrutural e estruturante. Essa violência sempre ocorreu, mesmo quando chamada de pátrio poder, honra ou crime passional. Somente quando reconhecemos a sua origem na desigualdade do machismo, afirmamos sua dimensão base, que é o que movimento feminista luta há muito para difundir, desnaturalizando a ideia de que os crimes partem de um desequilíbrio, adoecimento ou destempero circunstancial. Os crimes, na verdade, afirmam a estrutura que oportuniza e mantém a desvalorização das mulheres na sociedade.

Reafirmamos: a violência contra as mulheres é estrutural. E o feminicídio é o resultado do processo de violência de gênero. Quando vejo que este aumento dos feminicídios tem sido considerado uma epidemia, lembro que a luta feminista existe, desde sempre, para que não se considere a violência uma patologia.

Para nós, que construímos a campanha nacional contra o feminicídio, os crimes existem no campo da legitimação do desrespeito e da crença na impunidade, como consequência de um sistema político que invalida as mulheres.

Portanto, lutamos para que tanto a sociedade civil quanto o estado foquem em ações de prevenção e se posicionem de fato contra todas as violências que afetam as mulheres e meninas. Para isso, é necessário que sejam implementadas, efetivamente e com fácil acesso, políticas de prevenção nas escolas, desde a primeira infância. É preciso também que se promova a regulamentação da mídia e das redes sociais e campanhas para a prevenção da sociedade como um todo. Necessitamos mudar esse sistema de valores, implementando uma educação antimachista, antirracista da sociedade, para o feminismo e contra a misoginia.

As políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres e a legislação são extremamente importantes para a proteção, No entanto, precisamos mais do que isto. Precisamos de políticas que promovam realmente uma mudança radical da cultura. Precisamos que o Estado reconheça de fato este problema social e o assuma em sua base, de frente, para além dos discursos.

IHU – Com relação a uma possível aprovação do PL que criminaliza a misoginia, o quão importante seria esse passo para proteger as mulheres de possíveis agressões?

Analba Brazão Teixeira – Para nós da campanha, aprovar esta lei, que já passou pelo senado, é mais um passo em nossa luta. A misoginia também se expressa na violência política da qual as mulheres, principalmente as mulheres negras e mulheres trans, têm sido vítimas. O avanço do feminicídio, do transfeminicídio, dos estupros coletivos e “corretivos” (que buscam disciplinar a orientação sexual pela prática de violência sexual) são alarmantes no Brasil. Com certeza, esses índices foram agravados pela incitação a uma reação dos homens à liberdade das mulheres de quererem cuidar das suas próprias vidas. Existir uma lei que reconhece, de fato, que o ódio e a aversão a nós mulheres estão sendo espalhados de forma aberta, pública, planejada e enraizada nas redes sociais é de extrema importância.

Não permitir que falas, tais como a de Bolsonaro em relação à deputada Maria do Rosário ou de Nikolas Ferreira sobre Erika Hilton, entre tantos outros exemplos que poderíamos mencionar, incitem a violência contra as mulheres é algo urgente. A violência não pode ser tolerada. Ela deve ser criminalizada. Esta lei é fundamental para inibir e prevenir os ataques misóginos e perseguições nas redes sociais que as mulheres têm sofrido. E estes ataques, como já vimos, têm incentivado a violência contra as mulheres, especialmente a violência sexual.

Estamos acompanhando com preocupação como os representantes da extrema-direita estão se posicionando contra esta lei. Estes representantes, muitos erguidos pelos votos do capitalismo político religioso, além de negar apoio às pautas progressistas, notadamente as de interesse dos movimentos sociais – feminista antirracista, população LGBTQIAP+ –, adotam uma atuação que busca ridicularizar essas pautas e contribuir para desacreditar as instituições e as práticas democráticas.

Para manterem-se como oposição à existência desses sujeitos, protagonizam constantes atos de violência contra as mulheres cis, pessoas trans e LGBTQIAP+ em suas casas parlamentares. Então, a aprovação desta lei vai contra aquilo que forçosamente chamam de “princípios” em suas práticas misóginas. Por isso, é importante que sigamos com a campanha, para que esta lei seja aprovada e sancionada urgentemente. Acredito que será mais um passo para a inibição dos misóginos de plantão.

levante feminista contra feminicidio pernambuco

IHU – Sobre os discursos que fomentam a misoginia, como o discurso redpill, o quanto essas ações são perigosas e o que isso impacta no movimento feminista?

Analba Brazão Teixeira – O discurso redpill tem um objetivo muito nítido. Ele surge para desqualificar o feminismo e a dimensão LGBTQIAP+ da vida. Para isso, é reforçada a masculinidade tóxica, incitando a violência contra as mulheres e dificultando avanços na igualdade de gênero, para além de disseminar o ódio. É realmente uma estratégia, oferecendo resultados de impacto que se evidenciam nos dados de aumento da vulnerabilidade das pessoas diante da misoginia, homofobia, lesbofobia e transfobia.

Divulgados em 2025 e neste primeiro trimestre de 2026, os dados da pesquisa “Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube”, realizada pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais da NetLab-UFRJ, destacaram que 88% dos vídeos publicados nos últimos três anos trazem conteúdo de desprezo às mulheres – direcionado a militantes feministas e mulheres de até 30 anos – e insurgência masculina, este é um número assombroso.

Não há como desconectar esses ataques do aumento da violência e insegurança das mulheres em todos os espaços da sociedade. Portanto, admitimos que, sim, os discursos redpill têm impactado diretamente o movimento feminista.

Entretanto, são práticas que se consolidam pelo culto fornecido pela extrema-direita que, ao buscar poder e voto, apelam para a eleição do feminismo como inimigo número um. Por quê? Porque eles reconhecem que o movimento feminista possui um potencial organizativo de provocar muitas mudanças sociais, desestabilizando poderes opressores. Então, é importante para eles tentar silenciá-lo, buscando o silenciamento por meio de campanhas morais, de empreendimento simbólico e político centralizando críticas no feminismo.

Deste modo, o antifeminismo crescente surge como uma reação a nós, que construímos este movimento feminista e antirracista, com a finalidade de diluir nossas pautas a partir da redução destas a termos planos, e da estereotipia das pessoas diversas que se colocam como porta-vozes destas. Os machistas, independentemente de suas práticas privadas, advogam a favor da manutenção de um suposto modelo tradicional da família, construindo uma bolha narrativa paralela que não menciona ou reconhece elementos tais como o abandono paterno e a violência intrafamiliar, para associar a suposta decadência da sociedade à perda do referente da família tradicional, dando ao feminismo o principal crédito nessa questão.

E ainda apresentam o paradigma do “macho alfa” como redentor do masculino, ao mesmo tempo que adotam um discurso de vitimização, alegando que os homens são os verdadeiros discriminados na sociedade atual. O movimento feminista continua firme na luta, apesar de todos estes desafios que estamos enfrentando, diante deste quadro tão desalentador, de tanta desigualdade de forças, mas no qual nossa luta tem se tornado cada vez mais necessária.

Precisamos desnaturalizar as antigas e as novas formas de violência que se renovam e multiplicam a todo instante, a maioria de modo impune, dada a forte criminalização de quem defende direitos. Exemplos disso são os retrocessos em relação à pauta do aborto, o ataque constante à Lei Maria da Penha e, agora, os ataques também em relação à lei contra a misoginia.

IHU – Em relação às lutas feministas por igualdade de gênero e proteção às mulheres, qual a importância que esse movimento traz dentro da política e na sociedade como um todo?

Analba Brazão Teixeira – Se não fosse a luta feminista, nós mulheres hoje não estaríamos nem votando nem sendo votadas, para citar apenas um exemplo de emancipação pública da qual o feminismo tem crédito e responsabilidade. Poderia enumerar aqui vários e vários exemplos da luta feminista e do que conquistamos nestas últimas décadas.

O movimento feminista demonstra o tempo todo a capacidade de, ao mesmo tempo que faz a reflexão crítica, transformar essa reflexão em ação política. É uma história de luta que, pela proporção de suas conquistas e pelo fato de que elas seguem ameaçadas, até hoje precisa olhar para trás para se fortalecer e compreender a sua necessidade constante de incidência. Não há como não reconhecer que o caminho traçado pelo movimento feminista tem sido árduo, mas também de muita resistência e conquistas.

Embora pareça que estamos muito distantes de uma reversão dos casos de feminicídio, nossa persistência em não permitir que o Estado se omitisse nas relações privadas foi o que fez com que a violência contra as mulheres fosse assumida como um problema social. Fomos nós que conseguimos expor, diante da sociedade brasileira, que a magnitude pública da questão da violência contra as mulheres não poderia se “resolver” no âmbito do privado.

Com muito esforço dos movimentos de mulheres e feministas, dos seus coletivos e grupos locais, realizamos campanhas, ações de rua, vigílias, entre outras manifestações, que impulsionaram o Estado a dar respostas e a criar políticas públicas de enfrentamento. Foi a partir da nossa luta. Por isso seguimos conscientes de que devemos manter a luta.

IHU – Outra questão extremamente preocupante é a LGBTfobia e a transfobia. Como combater essas violências no país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo?

Analba Brazão Teixeira – A LGBTfobia e a transfobia também estão no mesmo arcabouço do avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo. A ação se alimenta diretamente do fascismo, do racismo, do fundamentalismo e da misoginia. É necessário considerar o que estamos vivendo em relação à disseminação do termo ideologia de gênero e seu campo crítico. A ideologia de gênero é uma contranarrativa que para existir abole fundamentações críticas, dissemina omissões históricas e distorções humanas e políticas, tornando-se um gatilho de efeito moral corrosivo na mobilização do ódio, por meio do acirramento do pânico contra minorias sexuais e identitárias.

A difamação das minorias identitárias sexuais é a base da munição dos atuais conflitos políticos e culturais, retirando o foco de debates em torno de problemas estruturais históricos de desigualdade, para validar desinformação, preconceito e ódio diante de questões que concernem ao gênero e à sexualidade.

É assim que a direita conservadora tem conseguido financiar campanhas de ódio e manter uma ofensiva de aniquilação e neutralização dos debates em torno de direitos sexuais e reprodutivos. O aumento da misoginia precisa ser apreciado em consonância com esses discursos, a partir da análise do aumento dos índices da LGBTfobia e transfobia que têm tirado a vida destas pessoas.

IHU – Como a educação para a igualdade de gênero pode ser implementada, não somente dentro de casa a partir da primeira infância, mas também nas escolas?

Analba Brazão Teixeira – Esta é uma questão urgente. Como já foi dito aqui, quando falamos de prevenção, acreditamos que um dos caminhos para prevenir a violência contra as mulheres é implementar nas escolas, desde a primeira infância, a educação para a igualdade de gênero.

A educação antimachista e antissexista é uma aposta necessária no enfraquecimento da violência, pois a violência de gênero é uma metodologia disciplinar que se aprende desde cedo. A ideia de oposição e hierarquia entre os gêneros, da mesma forma que é estimulada na coroação de comportamentos contraditórios, como concursos calcados na força e na aparência, divisão desigual da ocupação do espaço público, encaminhamento curricular estereotipado e distinto para meninos e meninas, também pode ser elemento de desconstrução de estereótipos da desigualdade, ensino didático de direitos jurídicos, humanos e fundamentais, fortalecimento crítico acerca de um referente de existência que não se paute no aniquilamento da diferença.

Estudos apontam que a masculinidade hegemônica se pauta numa hierarquia interna que utiliza a violência como experiência ostensiva de liderança. Os meninos são estimulados a ranquear as meninas por pressupostos normativos e a reproduzirem o mesmo comportamento de discriminação no interior do grupo dos meninos. A ideia de meninos e meninas como desiguais se complementa nessa polarização de identidades fixas e estereotipadas que diminuem tudo o que é feminino. A violência física e sexual precisa ser combatida, com o oferecimento de um ensino que não seja tolerante a essas práticas. Que problematize a agressividade como norma e a violência como emblema de virilidade e competitividade.

É fundamental que nas escolas se promovam atividades que possam fortalecer linguagem inclusiva, não capacitista, não sexista, antirracista e não LGBTfóbica. É necessário promover o pensamento crítico não binário, a diversidade na promoção de aprendizagem e, para além da educação da igualdade de gênero, também que sejam implementada uma educação antirracista e inclusiva. Portanto, necessitamos também pensar em igualdade de gênero como um elemento interdisciplinar e transdisciplinar, que precisa estar presente em todas as disciplinas e atividades extracurriculares.

IHU – De que forma a plataformização da misoginia transforma as violências contra meninas e mulheres? Como o machismo de gerações anteriores se diferencia da misoginia radicalizada que hoje atinge adolescentes, jovens e homens adultos nos ambientes online? E por que essa violência deve ser compreendida como algo característico do nosso tempo, marcado por sujeitos “nativos digitais” e pelas contradições próprias da era pós-neoliberal?

Analba Brazão Teixeira – As redes sociais têm a cada dia amplificado a polarização de gênero, favorecendo a propagação de discursos machistas e misóginos, especialmente entre adolescentes cada vez mais jovens. Crianças também têm sido atingidas por este ambiente virtual. Há um investimento em infantilizar essa linguagem. Torná-la rápida e descartável. Com o uso da viralização, mensagens rápidas, como vídeos curtos e memes, que amplificam estes discursos violentos. Está também nas redes, assim como na vida concreta, a misoginia.

Vemos o quanto a geração de hoje já cresce conectada, com os chamados nativos digitais. Muito cedo já estão nos ambientes digitais recebendo a influência destas plataformas, o que afeta diretamente seu processo de socialização e sua organização afetiva e psíquica. As redes sociais se caracterizam por polarização, conexões rápidas baseadas em amor e ódio, em engajamento estimulado por cliques que se multiplicam e multiplicam sensações fugazes de aceitação e pertencimento. Essas redes têm sido um espaço de disciplina moral coercitiva em relação aos papéis de gênero. Meninas se tornam cada vez mais condicionadas a experimentar o culto a padrões uniformes de beleza. Meninos são frequentemente subordinados a regras de identificação com masculinidade tóxica.

Nesse ínterim, através das interações, sejam nos diversos jogos nas plataformas digitais ou nas redes sociais, cria-se um vocabulário próprio que internaliza as hierarquias, fortalece o machismo e a misoginia, que já fazia parte da socialização da masculinidade. Ou seja, hoje também se encontra no ambiente digital e está cada vez mais acirrado e cada vez mais difícil de controlar. Há inclusive plataformas, como o Discord, que criam salas de bate-papo anônimas que vão fortalecendo o ódio, enaltecendo a crença que a menina boa é submissa, e o sentimento de que estes meninos são rejeitados por meninas que não se subordinam a esses códigos.

A série Adolescência, por exemplo, traz à tona a discussão em relação ao perigo da presença de discursos misóginos em chats, fóruns e jogos online. Esta série aponta o que o feminismo já vinha colocando há tempos, de que as crianças e adolescentes estão sendo, sim, impactados por meio das redes sociais. Aprendendo a odiar as mulheres.

Uma das conclusões do estudo “Sem filtro” da LLYC, que analisou 8,5 milhões de mensagens de 12 países, é que as redes sociais amplificaram a polarização de gênero, favorecendo a propagação de discursos machistas, especialmente entre jovens. Os algoritmos de plataformas como X e Instagram priorizam a viralização de mensagens curtas, como vídeos curtos e memes, que amplificam e distorcem temas complexos. Isto criou um terreno fértil para os discursos antifeministas, em que as reações rápidas amplificam a resistência ao feminismo. Por isso, cabe nomear esta ação de antifeminismo, uma misoginia orquestrada que cresce mundialmente. De mãos dadas com o crescimento da extrema direita.

A plataformização da misoginia consegue lucrar ao mesmo tempo que amplia e organiza o ódio às mulheres nas redes sociais, com impacto na vida concreta. No nosso cotidiano, é importante lembrar também que a violência digital não fica só nas redes, mas sim se concretiza, como estamos vendo todos os dias. Das redes para as ruas, para as casas, para as escolas. Para todos os espaços da sociedade.

Precisamos dizer que é necessário e urgente regulamentar essas plataformas, que ainda não foram por causa da pressão das big techs. Redes cuja plataformização, além de fortalecer e polarizar, se alimenta do engajamento que os discursos de ódio proporcionam, atacando as mulheres, as meninas, as pessoas LGBTQIA+ e a população negra. Regulamentar não é censurar. É colocar limites em uma organização de poder de multiplicação esmagadora no recrudescimento do ódio a todas as pessoas em condição de vulnerabilidade.

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fonte: https://ihu.unisinos.br/664748-feminicidio-lesbocidio-e-transfeminicidio-a-face-obscura-da-extrema-direita-que-viabiliza-a-agressao-entrevista-especial-com-analba-brazao-teixeira-2