Os vínculos históricos, geográficos e culturais entre Nova Orleans e Cuba fomentaram em Nimtz um profundo sentimento de solidariedade para com a ilha onde, como observou, “os negros não constituíam uma minoria”.
No prefácio do recém-lançado Ideologia e violência racial, Mario Soares Neto conta a história do autor essencial para se entender as relações de classe e raciais nos países capitalistas, sobretudo nos Estados Unidos, sob a perspectiva do materialismo histórico. Autor está no Brasil promovendo debates em feiras literárias, espaços militantes e universidades.

Extraído do livro Ideologia e violência racial: raça, luta de classes e o declínio do imperialismo supremacista, de August Nimtz (Autonomia Literária, 2026). Para saber sua agenda no Rio de Janeiro e São Paulo, acesse aqui.
A presente coletânea resulta de um exaustivo processo de pesquisa, tradução e curadoria editorial voltado aos ensaios críticos de August H. Nimtz (1942-), professor de Ciência Política, Estudos Africanos e Afro-Americanos na Universidade de Minnesota. Transcendendo o escopo estritamente acadêmico, esta obra configura-se como um instrumento de intervenção teórica e política nas contradições inerentes ao capitalismo contemporâneo, provendo uma análise substancial do fenômeno que o autor denomina como “capitalismo nu”.
Para a compreensão da densidade dos artigos coligidos, torna-se imperativo resgatar a trajetória do autor, cuja biografia se articula dialeticamente com as lutas radicais negras e socialistas da segunda metade do século XX. Testemunha das tensões do regime de segregação racial Jim Crow, Nimtz consolidou-se como um expoente do materialismo histórico-dialético. Sua formação não se encerra nos limites da academia estadunidense; ela é forjada no “laboratório da luta de classes”, maturada pela observação de processos revolucionários globais e pela crítica às estruturas de dominação burguesa.
O Enclave caribenhoe a gênese política
August H. Nimtz é oriundo do Seventh Ward (Sétimo Distrito), um bairro da classe trabalhadora de Nova Orleans, Louisiana, lócus fundamental para o avanço da resistência negra, situada estrategicamente na encruzilhada geográfica entre o Rio Mississippi, cujas águas deságuam no Golfo do México, e o Lago Pontchartrain, que margeia a cidade. O autor caracteriza Nova Orleans como o “enclave caribenho mais setentrional dos Estados Unidos”, um cenário onde as tensões étnico-raciais extrapolavam a dicotomia binária entre negros e brancos, manifestando-se em uma complexidade que envolvia desde descendentes de imigrantes europeus – alemães, por exemplo – e povos originários norte-americanos até indivíduos fenotipicamente caucasianos, porém socialmente classificados como negros.
Esta singularidade histórica vincula-se ao papel de Nova Orleans como epicentro comercial do Sul antes da Guerra Civil, conectando a economia da plantation escravista às manufaturas de Manchester, conforme observado por Marx e Engels, e mantendo laços orgânicos com o Caribe, especialmente Havana, situada a apenas 600 quilômetros de distância. Nesse ambiente de efervescência dos fluxos mercantis e complexidade cultural, Nimtz desenvolveu uma consciência de classe, potencializada pelo engajamento sindical familiar. Assim, sua formação sintetiza as contradições de um mundo onde as origens rurais das plantações de cana de açúcar de sua linhagem materna convergiram com o dinamismo urbano e proletário de sua ascendência paterna.
Da matriz pan-africanista ao socialismo revolucionário
A formação intelectual de Nimtz foi profundamente influenciada pelo ambiente familiar politicamente engajado. Seu pai, August H. Nimtz, um sindicalista descrito como “rebelde”, transmitiu-lhe raízes radicais, enquanto sua mãe, Marguerite Malarcher Nimtz, acadêmica pela Universidade de Chicago, atuou no Sindicato dos Professores Negros na luta contra o racismo nos Estados Unidos. Ambos foram fundadores da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) [Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor] em Nevada.
O interesse militante de Nimtz manifestou-se precocemente: em 1957, a independência de Gana, sob a liderança de Kwame Nkrumah, foi celebrada em seu lar como um marco da Revolução Africana. Nesse período, ele estava no ensino médio, e sua mãe organizou para que, em parceria com sua irmã, elaborasse uma exposição escolar sobre o processo independentista africano. Foi nesse momento que “tudo começou” para Nimtz. Como relatou, “a Revolução Africana foi um grande acontecimento, e a independência de Gana em 1957 foi especialmente significativa”. Sua família também apoiou Gamal Abdel Nasser no Egito. Quando o presidente egípcio nacionalizou o Canal de Suez, o feito representou um momento familiar marcante. Outro episódio decisivo refere-se à mobilização internacional de solidariedade após o Massacre de Shaperville, ocorrido em março de 1960 na África do Sul, ocasião em que Nimtz estabeleceu um paralelo seminal entre o regime do apartheid sul-africano e o sistema Jim Crow vigente em Nova Orleans.
Os vínculos históricos, geográficos e culturais entre Nova Orleans e Cuba fomentaram em Nimtz um profundo sentimento de solidariedade para com a ilha onde, como observou, “os negros não constituíam uma minoria”. Apoiador da Revolução Cubana desde a sua vitória em 1959, ele acompanhou os desdobramentos do socialismo caribenho, integrando o comitê internacional de solidariedade ao processo revolucionário na ilha. Esse período coincidiu com o auge da luta pelos direitos civis e pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos.
Ao longo da década de 1960, a trajetória de Nimtz foi marcada por uma crescente aproximação com o horizonte do pan-africanismo. Entre 1961 e 1962, participou de um evento da Nação do Islã em sua cidade natal, momento em que travou contato direto com o pensamento e a prática política de Malcolm X. Sua inserção definitiva na ação direta ocorreu no verão de 1962, ao integrar uma manifestação contra a segregação racial diante da rede Woolworth, no centro de Nova Orleans.
Egresso da Universidade Purdue, Nimtz começou o mestrado na Universidade Howard em 1963, em meio ao fenômeno Malcolm X, apenas um mês após a Marcha sobre Washington. Como relatou, nesse período o clima em Washington, D. C., era “incrivelmente político”. Certo dia, no outono de 1963, ao sair de um restaurante, inesperadamente, encontrou Martin Luther King Jr. discursando em um comício improvisado em um estacionamento. O futuro Pantera Negra Stokely Carmichael (Kwame Ture) era veterano em Howard enquanto Nimtz cursava o primeiro ano da pós-graduação. Ele o encontrava com frequência no campus da universidade.
Sua primeira responsabilidade organizacional de maior relevância consistiu em auxiliar na organização de um protesto em frente à Casa Branca, na primavera de 1964, em solidariedade aos réus do Julgamento de Rivonia, na África do Sul. Contudo, a experiência vivida no continente africano seria ainda mais decisiva para sua trajetória intelectual e política. Em 1968, Nimtz foi contemplado com uma bolsa de pesquisa para o doutorado na Tanzânia, onde residiu entre janeiro de 1969 e julho de 1970. Sua tese de doutorado e seu primeiro livro versaram sobre o Islã e a política tanzaniana, temática cuja escolha refletia, em parte, a influência exercida por Malcolm X. Durante sua formação na Universidade Howard, Nimtz estudou suaíli e árabe, conhecimentos que lhe permitiram acessar fontes e realizar pesquisas fundamentais para o desenvolvimento de seu trabalho.
Na Tanzânia, residiu em Bagamoyo e Dar es Salaam, cidade que, à época, consolidava-se como um dos principais centros políticos das lutas anticoloniais no continente africano. A Frelimo de Moçambique, o Congresso Nacional Africano e o Congresso Pan-Africano, ambos da África do Sul, bem como outros movimentos de libertação africanos, mantinham suas sedes organizativas naquele país da África Oriental. Nesse contexto, Nimtz estabeleceu relações com destacados quadros revolucionários, entre os quais figuravam Walter Rodney e Patricia Rodney, seus vizinhos em Dar es Salaam. Como registraria posteriormente, a experiência tanzaniana produziu uma profunda transformação em sua consciência política: partiu para o continente africano como nacionalista negro e pan-africanista, mas regressou aos Estados Unidos como militante comunista, após compreender os limites históricos das revoluções de caráter estritamente nacional e a necessidade de uma perspectiva internacionalista voltada para a superação das relações capitalistas de exploração.
Ao retornar aos EUA em 1971, Nimtz buscou uma organização comunista, frustrando-se com o Communist Party USA (CPUSA) [Partido Comunista dos Estados Unidos] devido à sua política de “frente popular” e relativo enraizamento no Partido Democrata. Ao assumir um posto na Universidade de Minnesota, encontrou o Socialist Workers Party (SWP) [Partido Socialista dos Trabalhadores], liderado pelo trotskista James P. Cannon e com forte tradição na região desde a década de 1930, particularmente, a partir da greve dos caminhoneiros de 1934. Em sua avaliação, Minneapolis era singular nesse aspecto, em virtude da forte presença trotskista.
Filiado ao SWP em Minneapolis e ativo no African Liberation Support Committee (ALSC) [Comitê de Apoio pela Libertação da África], Nimtz retornou à Tanzânia no verão de 1973, como parte de uma delegação que iria se encontrar com membros de algumas organizações de libertação africana para as quais havia arrecadado fundos. Em Dar es Salaam, conheceu Angela Davis, então em turnê após sua libertação da prisão, um encontro social no qual Nimtz expressou seu respeito por Davis. Nesse período, sua tarefa política consistia em reunir informações sobre o caso e apoiar o comitê em defesa da ativista.
A contingência histórica desempenhou um papel determinante na definição da militância orgânica de Nimtz: a opção por Minneapolis, em detrimento de Chicago, constituiu o fator decisivo que o afastou da órbita do CPUSA e consolidou sua trajetória no SWP. Em uma análise retrospectiva sobre as encruzilhadas de sua prática política, o autor reconhece que, caso tivesse sido contratado pela Universidade de Chicago, o que descreveu como seu “emprego dos sonhos” naquele período, seu percurso “provavelmente teria acabado no Partido Comunista”. Em sua análise, essa inclinação seria resultado da forte presença territorial que o CPUSA exercia na comunidade negra daquela região somada ao magnetismo simbólico de figuras como Davis. Conforme pondera Nimtz, “Angela Davis foi uma heroína para nossa geração, e a mobilização e organização em torno de seu caso foi o foco da militância em Chicago em 1971”. Ao estabelecer um balanço entre história e acaso, o autor sintetiza a guinada em sua biografia: “o destino, contudo, conduziu-me a Minneapolis”.
Durante a década de 1980, sob o impacto político e simbólico da vitória da Revolução Sandinista na Nicarágua (1979), Nimtz integrou as fileiras do comitê de solidariedade internacional voltado ao apoio ao processo revolucionário nicaraguense. Essa inserção não deve ser compreendida com um episódio circunstancial ou periférico, mas como expressão orgânica de uma concepção de internacionalismo que atravessa de modo estruturante sua trajetória intelectual e militante. O apoio a experiências revolucionárias e processos de libertação nacional em países como Gana, África do Sul, Tanzânia, Cuba e Granada evidencia a centralidade de uma prática política orientada pela solidariedade ativa com povos submetidos a formas articuladas de dominação de classe, gênero, raça e imperialismo.
Essa dimensão confere unidade teórico-prática à sua atuação como intelectual orgânico, na medida em que articula produção de conhecimento, intervenção política e participação em redes internacionais de solidariedade. Trata-se, portanto, de uma concepção de intelectualidade que recusa a neutralidade acadêmica e se inscreve deliberadamente no campo das lutas sociais concretas, especialmente aquelas vinculadas à autodeterminação dos povos e à superação das estruturas de exploração capitalistas. É precisamente nesse horizonte de indissociabilidade entre emancipação socialista e enfrentamento das formas históricas de racialização que Nimtz se reivindica, em última instância, como um “comunista negro”. Tal formulação sintetiza não apenas uma identidade política, mas uma posição teórica: a compreensão de que a luta de classes, nos contextos marcados pela diáspora africana e pelo colonialismo, é inseparável da crítica radical ao racismo e às formas sociais que o reproduzem.
Produção teórica e inserção no cenário brasileiro
No plano da formação acadêmica, August Nimtz graduou-se em Relações Internacionais pela Purdue University, obtendo posteriormente o título de mestre em Estudos Africanos pela Howard University (1963-1965). Em 1966, transferiu-se de Howard para a Indiana University, onde concluiu o doutorado em Ciência Política em 1973.
Sua produção teórica é extensa e ocupa lugar de destaque no campo do marxismo contemporâneo e da teoria política comparada. Entre suas obras mais relevantes figuram: Islam and Politics in East Africa (1980) [Islã e política na África oriental]; Marx and Engels: their contribution to the democratic breakthrough (2000) [Marx e Engels: sua contribuição à virada democrática]; Marx, Tocqueville, and race in America (2003) [Marx, Tocqueville e raça nos Estados Unidos]; Lenin’s Electoral Strategy from Marx and Engels through the Revolution of 1905 (2014) [A estretágie eleitoral de Lênin, de Marx e Engels à Revolução de 1905~]; Lenin’s Electoral Strategy from 1907 to the October Revolution of 1917 (2014) [A estratégia eleitoral de Lênin, de 1907 à Revolução de Outubro de 1917]; Marxism versus Liberalism: Comparative Real-Time Political Analysis (2019) [Marxismo contra liberalismo: análise política comparativa em tempo real]. Em conjunto, tais trabalhos evidenciam um esforço sistemático de reconstrução do pensamento marxista enquanto instrumento de interpretação das dinâmicas históricas concretas, especialmente no que tange às relações entre democracia, imperialismo, socialismo e questão racial.
Mais recentemente, em coautoria com Kyle A. Edwards, publicou The Communist and the Revolutionary Liberal in the Second American Revolution: Comparing Karl Marx and Frederick Douglass in Real-Time (2024) [O comunista e o revolucionário liberal na segunda Revolução Estadunidense: comparando Karl Marx e Fredrick Douglas em tempo real], obra que aprofunda o diálogo entre tradição marxista e pensamento radical negro no contexto da história estadunidense. Sua produção mais recente, intitulada Marxismo Negro: uma crítica marxista (2026 – no prelo), já traduzida para o português, contará com edição brasileira ampliada em relação ao original publicado pela Monthly Review, incorporando, de forma inédita, um apêndice dedicado à análise da Revolução em Granada (1979-1983), o que reforça sua inserção no debate sobre experiências revolucionárias caribenhas.
Apesar da robustez de sua produção intelectual, a presença de Nimtz no cenário editorial brasileiro ainda se configura como relativamente limitada e descontínua. Embora sua recepção tenha ganhado algum impulso nos últimos anos, ela remonta sobretudo à primeira década dos anos 2000, quando sua obra passou a circular por meio de intervenções pontuais em periódicos críticos.
O marco inaugural de sua tradução no Brasil ocorreu em 2007, com a publicação do artigo “Fenômenos naturais versus fenômenos sociais: Cuba e as lições do Katrina”, na revista Cadernos do CEAS. Nesse ensaio, Nimtz estabelece uma contraposição analítica entre a resposta estatal cubana a desastres naturais e a gestão catastrófica da crise do furacão Katrina pelos Estados Unidos, evidenciando como raça e classe operam como determinantes na produção desigual da vida e da morte no capitalismo contemporâneo.
Mais recentemente, sua obra passou a integrar coletâneas e dossiês em revistas especializadas no Brasil, ampliando, ainda que de forma gradual, sua circulação no meio acadêmico. Não obstante sua introdução tardia e ainda parcial, a difusão de seu pensamento tem contribuído para a abertura de um diálogo produtivo entre o marxismo contemporâneo e as fileiras do pensamento negro radical brasileiro, tensionando tanto o campo da teoria social quanto as interpretações hegemônicas sobre raça e capitalismo.
Análise da coletânea: Ideologia e violência racial
Aobra Ideologia e violência racial: raça, luta de classes e o declínio do imperialismo supremacista constitui uma aplicação do método materialista histórico dialético à análise da conjuntura política contemporânea. Estruturada em nove ensaios e um apêndice final, a coletânea desenvolve uma interpretação crítica que articula desde a anatomia do “capitalismo nu” na era Trump até a reavaliação estratégica das possibilidades de ação revolucionária das massas no contexto atual.
No ensaio inaugural, Nimtz recusa as leituras moralizantes ou psicologizantes que reduzem Donald Trump a categorias como “sociopata” ou “racista” em sentido individual. Em vez disso, argumenta que sua característica fundamental reside em sua condição de capitalista em estado “puro”, isto é, desprovido das mediações normativas típicas do liberalismo clássico. Trump, nesse sentido, não representa uma anomalia, mas a explicitação da lógica imanente do capital, ao incorporar sem disfarces a racionalidade da acumulação privada e da mercantilização da vida política, tornando-se uma “verdade inconveniente” tanto para a direita quanto para a esquerda reformista.
A partir dessa chave interpretativa, o autor analisa o levante desencadeado pelo assassinato de George Floyd como um ponto de inflexão histórico na luta antirracista contemporânea. Longe de se restringir a uma revolta setorial ou um protesto negro isolado, o movimento assume, segundo Nimtz, caráter massivo, multirracial e transnacional. Sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, tal configuração indica uma potencial ruptura das formas de fragmentação ideológica produzida pelo capitalismo, abrindo espaço para formas emergentes de solidariedade de classe capazes de transcender as barreiras raciais erigidas pela ideologia dominante.
Na sequência, ao examinar a dinâmica da violência estatal e a reação popular no contexto das mobilizações no Nicollet Mall, o autor desenvolve uma crítica contundente às estratégias políticas de contenção institucional dos movimentos sociais. Ele demonstra como mecanismos de conciliação de classes e processos de institucionalização tendem a neutralizar a potência disruptiva das lutas de rua, deslocando sua energia para canais burocráticos de baixa efetividade transformadora. Nesse contexto, a ideologia da ordem opera como dispositivo central de reprodução da hegemonia burguesa.
Em um exercício de política comparada, Nimtz investiga as raízes estruturais da violência policial nos Estados Unidos, contrapondo-as à experiência cubana. Sua tese central é que a ausência de episódios equivalentes ao assassinato de George Floyd em Cuba não pode ser compreendida como acaso, mas como resultado histórico de uma transformação revolucionária nas relações sociais de produção e na função do aparato repressivo do Estado. Enquanto nos Estados Unidos a polícia opera como mecanismo de proteção da propriedade privada, do capital e da hierarquia racial, em Cuba, onde a classe trabalhadora promoveu uma revolução de caráter socialista, sua função estaria subordinada a uma lógica social distinta, ainda que não isenta de contradições.
Ao analisar a ascensão de Trump como sintoma da crise da hegemonia liberal, o autor sustenta que a mobilização do nacionalismo econômico e da violência racial constitui estratégia de recomposição da dominação de classe, mediante a captura do descontentamento da classe trabalhadora branca, enquanto, concomitantemente, serve aos interesses estruturais do capital. Trata-se, portanto, de uma reconfiguração ideológica que revela a funcionalidade das instituições democráticas burguesas, centrada na ideologia e violência contra o conjunto da classe trabalhadora.
Em dois artigos dedicados ao julgamento de Derek Chauvin, Nimtz ultrapassa a mera crônica judiciária para oferecer elementos para a análise da crise da forma jurídica. O autor examina o dilema estratégico do movimento antirracista, destacando a tensão entre a atuação institucional e a mobilização de massas. Ao analisar trajetórias como a de Keith Ellison, questiona se a ocupação de espaços estatais fortalece ou limita o potencial transformador das lutas sociais. Nesse contexto, sua análise permite refletir sobre o fenômeno da “legalização da classe operária” (Edelman), que se enraíza em primeiro lugar na produção capitalista e busca enquadrar a insurgência popular nos limites da legalidade burguesa, convertendo a luta política em um mecanismo de reprodução da ordem. A conclusão de Nimtz é categórica: sem a pressão contínua das massas centrada na luta de classes, o capitalismo tende a absorver, capturar e neutralizar as demandas por transformação social.
Dando sequência a essa reflexão, a condenação de Chauvin é apresentada não como uma celebração da justiça burguesa, mas como uma concessão circunstancial do Estado diante da intensidade das mobilizações desencadeadas pelo assassinato de George Floyd. Para Nimtz, o veredito expressa a mudança de consciência política produzida pelos protestos do Black Lives Matter, refletida, inclusive, na inédita composição multirracial e de classe do júri. A decisão demonstra que a mobilização unitária da classe trabalhadora pode constranger o Estado a responsabilizar seus próprios agentes repressivos. Trata-se de uma conquista histórica que, embora temporária e contraditória, evidencia que a justiça burguesa se move quando o custo político da manutenção da ordem torna-se excessivamente elevado para a classe dominante.
Geopolítica da barbárie e o “Que fazer”?
Apresente edição é coroada pela inclusão do ensaio “A galinha capitalista que voltou para o poleiro: o que 250 anos legaram”. Escrito no calor do semiquincentenário (250 anos) dos Estados Unidos, este texto funciona como uma síntese que liga a “estreia marxista” de August Nimtz, no bicentenário de 1976, ao atual momento de crise orgânica do capital. Ao resgatar a metáfora da “galinha capitalista” que finalmente retorna ao seu lugar de origem – a mercantilização de cada faceta da vida pelo capitalismo –, Nimtz demonstra que a ascensão de Donald Trump não é um desvio acidental, mas a expressão mais nua da lógica do autointeresse semeada na fundação da república e consolidada pela contrarrevolução constitucional de 1787.
Sob esta perspectiva, o fenômeno Trump é entendido como a manifestação de uma geopolítica da barbárie, marcada pela erosão das mediações diplomáticas do liberalismo e pela intensificação de formas abertas de coerção econômica, militar e ideológica. O autor eleva o tom da advertência ao situar o presente dentro de um cenário que assemelha a atualidade ao período que antecedeu a “Grande Guerra” de 1914. Nimtz alerta que a lógica inerentemente predatória do modo de produção capitalista em sua fase madura, movida por “rivalidades econômicas” e “ganância territorial”, torna uma nova conflagração mundial virtualmente inevitável sob a batuta do capital financeiro.
Esse cenário se expressa na escalada das tensões internacionais, particularmente nas ofensivas contra a Palestina e o Irã, bem como na intensificação do cerco à América Latina e ao Caribe. No caso brasileiro, essa ofensiva manifesta-se na disputa por recursos estratégicos e na imposição de mecanismos econômicos que reforçam o caráter extrativista e neocolonial da política imperial. A “opção nuclear” do capital-imperialismo envolve hoje um perigo qualitativamente superior a 1914: a letalidade do armamento contemporâneo transforma uma eventual Terceira Guerra Mundial em uma ameaça existencial à nossa espécie.
Interessante notar que, no plano interno aos Estados Unidos, instituições como o Immigration and Customs Enforcement (ICE) [Serviço de Controle de Imigração e Aduanas] aparecem como expressões de uma lógica de militarização voltada à persecução de sujeitos racializados e controle das populações migrantes, enquanto o aparato militar estadunidense projeta essa mesma racionalidade para além-mar.
Paradoxalmente, Nimtz sustenta que o agravamento dessas contradições tende a criar condições para a radicalização da consciência política das massas. O ensaio reforça a tese de que o “Sonho Americano” ficou definitivamente para trás e que, diante da marcha para o abismo nuclear, apenas o proletariado estadunidense possui a capacidade real de intervir. Como única força no planeta capaz de impedir que as armas de destruição em massa localizadas na cidadela do capital sejam acionadas, a classe trabalhadora ressurge não apenas como coveira do sistema, mas como a última salvaguarda da humanidade.
A coletânea encerra-se com uma entrevista na qual Nimtz reafirma a atualidade do marxismo e a indissociabilidade entre antirracismo e anticapitalismo. Para o autor, o legado de Marx e Engels permanece inseparável da teoria e prática revolucionária; o compromisso com a transformação efetiva da realidade social.
Para o público brasileiro, a obra sugere que ideologia racial, violência imperial e exploração econômica não constituem fenômenos isolados, mas são dimensões articuladas de um mesmo modo de produção em crise. Diante do declínio iminente de Trump, projeta-se que, por meio da intensificação das lutas de massas, seja possível a derrocada da extrema direita nos Estados Unidos, no Brasil e em diversas partes do mundo.
Diante deste cenário, “é preciso passar à ação”. Contudo, essa ação pressupõe a organização política independente da classe trabalhadora em perspectiva internacionalista, voltada à superação histórica do capital e de suas formas sociais de exploração e opressão.
Mario Soares Neto
o é advogado, professor e doutorando em Direito pela USP.










Uma coletânea de artigos escritos por parceiras estratégicas da CFEMEA e que construíram conosco nossas principais lutas políticas ao longo dos últimos 30 anos. 


1989-2026 - Todas as publicações do Cfemea podem ser copiadas e publicadas em outros portais, utilizadas em processos formativos e para o fortalecimento do movimento feminista, pedimos somente que a fonte seja citada. As produções de outras entidades podem requer autorização das mesmas. O Portal do Cfemea foi desenvolvido utilizando o CMS Joomla com licença GNU - software livre.