Filme mostra como os processos de subjetivação de pessoas negras são marcados por experiências específicas de racialização, apagamento e luta por reconhecimento

Uma recomendação: assistam ao filme “Criadas”, dirigido por Carol Rodrigues. O título é a primeira coisa que nos faz pensar. A ambiguidade da palavra e as primeiras cenas da película mexem com nosso imaginário e a colonialidade instituída na nossa formação. Uma vez que nos remete tanto à função doméstica destinada às mulheres negras na “criadagem”, como a uma pessoa que, por convivência, é formada numa perspectiva de existência.
A complexidade das relações familiares e demais estruturadas pelo racismo, gênero e classe vai se revelando no desenrolar da trama e nos lembra, apesar de estar por vezes na superfície e tão escancarada, quão inconscientes somos das forças que tramam estas relações. Sobretudo quando os afetos significativos que temos são, em grande parte, os nós de nossas questões.
Em “Criadas” o reencontro de duas mulheres negras, uma retinta e a outra de pele clara, primas que moravam na mesma casa em uma parte de suas infâncias, mas com posições bem diferentes nas relações estruturadas, são afetadas por memórias familiares e vínculos afetivos que atualizam feridas, heranças coloniais e o colorismo como efeito do racismo na família. Sandra que é retinta, retorna à casa onde viveu com a sua mãe que trabalhou como empregada doméstica para uma tia, cuja ascensão econômica a distingue dos demais parentes. Enquanto sua mãe, como a criada da casa, ocupava o lugar de cuidado, servidão e invisibilidade.
Por outro lado, Mariana de pele clara, vai se dando conta das distinções, acessos e experiências sociais e afetivas que teve. E de como a hierarquização da cor, distribuição de privilégios e violências sofridas se davam conforme a proximidade com os ideais de embranquecimento. Sobretudo, transmitidos pela sua mãe que parece ter adotado tais ideais como espécie de blindagem das violências raciais. No filme essas violências ultrapassam a dimensão econômica, se estendem às relações familiares e amorosas, organizando os afetos dentro e fora do âmbito familiar.
A casa é mais do que um cenário, é uma metáfora das estruturas coloniais que sustentam uma aparente normalidade construída sobre relações racializadas não elaboradas que uma determinada história insiste em ocultar. As paredes são testemunhas do que se viveu e do que se vive. Escondem histórias, segredos familiares, lembranças fragmentadas, silenciam violências, delimitam cômodos e lugares sociais. As paredes são barreiras físicas, simbólicas e psíquicas herdadas pelas personagens. Elas encarnam traumas transgeracionais que atravessam suas histórias pessoais. Aqui a ausência de palavras não significa ausência de violência, mas a permanência de marcas psíquicas desta violência nos corpos, nos afetos, nas relações.
O sintoma colonial










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