Em exibição até o dia 19 de setembro, Maternidade Negra à Luz registra o cotidiano de oito mães negras e questiona os imaginários historicamente associados a elas

 

Publicado: 17/09/2026 às 15:48 - Jornal da USP

Texto: Maykon Almeida*

Arte: Livia Bortoletto**

“Eu não tinha nenhuma fotografia minha nem da minha família […] eu queria ter algumas recordações da minha filha pequenina e da família que eu queria construir” (Lúcia, mãe de Cátia) – Foto: Lubi Prates

 

Lúcia é uma mulher negra, afrodescendente. Ela é mãe da Cátia e avó do Vicente. Na ausência de registros da própria infância, comprou uma câmera para documentar o crescimento da filha. A escassez de fotografias não é uma exclusividade de Lúcia. O mesmo cenário aparece nos relatos das outras sete mães retratadas na exposição Maternidade Negra à Luz, da poeta e doutora pelo Instituto de Psicologia (IP) da USP Lubi Prates. A mostra está em exibição no Complexo Cultural Oswald de Andrade até 19 de setembro.

Com mais de 60 fotografias produzidas em cidades portuguesas, a exposição busca apresentar novos olhares e reinventar os imaginários associados às maternidades e às mães negras. Emolduradas, coladas nas paredes ou reunidas em álbuns e monóculos, as imagens documentam, sobretudo, o cotidiano: os interiores das casas, os passeios no parque, livros, cadernos, paredes rabiscadas e cenas de afeto entre avó, filha e neto.

Segundo Lubi, “Maternidade Negra à Luz é um projeto que visa retratar maternidades negras (assim mesmo, no plural), pois, quando me tornei mãe, comecei a reparar que as poucas fotografias de mães negras que eu via eram imagens que nos colocavam como ‘mães pretas’, amas de leite etc., e eu me sentia perturbada pela ausência de outro imaginário”.

Dispostas em diferentes alturas, as fotografias também tornam a mostra acessível a outro público: as crianças. “Algumas fotografias ficaram mais baixas que a linha dos olhos para adultos, justamente para que as crianças também pudessem aproveitar aquele espaço, que é delas”, ressalta.

Lubi Prates - Foto: Mayara Barbosa

 

Autora de quatro livros de poesia, Coração na boca (2012), Triz (2016), Um corpo negro (2018) e Até aqui (2021), Lubi teve suas duas últimas obras como finalistas do Prêmio Jabuti: em 2019, na 61ª edição, e em 2022, na edição 64 da premiação. Tradutora de diversos livros, a escritora também teve suas obras traduzidas e publicadas na Alemanha, Argentina, Colômbia, Croácia, Estados Unidos, França, Portugal e Suíça.

Segundo ela, a ideia era criar um espaço aconchegante. “Acho que consegui manter a poesia também na exposição. No início do projeto, eu já queria que as fotografias não tivessem molduras, que pudéssemos reproduzir fotografias coladas nas paredes, algo tão comum na minha infância nos anos 1990 e em outras famílias negras. Trouxemos álbuns e monóculos, de um tempo em que começou, mesmo sem pensar, a minha relação com a fotografia. Tão afetiva!”, afirma a escritora.

A escolha de Portugal se deu porque foi em Lagos, na região do Algarve, que aconteceu o primeiro leilão de pessoas escravizadas. Na manhã de 8 de agosto de 1444, 235 pessoas negras foram destituídas de sua humanidade e transformadas em objeto, mercadoria e moeda.

É também nesse território marcado pela história da escravização que Lubi procura outras histórias e possibilidades para as maternidades negras. “Aqui, em Portugal, eu quero recolher as sementes que as mulheres negras escravizadas deixaram e plantaram para nós, colher as flores, que é conhecer mães negras que estão, conscientemente, construindo uma maternidade própria, livre”, afirma.

Lúcia, Cátia e Vicente – Foto: Douglas Santiago

 

A escassez de registros

Produzidas durante quase dois meses, as imagens que compõem Maternidade Negra à Luz resultam de um longo processo de pesquisa, inquietação e de uma relação íntima de Lubi com a fotografia. Entre suas duas irmãs, ela foi a única que teve um álbum durante a infância. Assim como outras pessoas negras, Lubi também nunca viu imagens da juventude de seus pais. “O que eu sinto é que as infâncias deles foram realmente perdidas numa luta pela sobrevivência. Eu nunca vi uma fotografia do meu pai em sua juventude. Da minha mãe, só a conheci a partir dos seus 15 anos, em uma fotografia que estampa sua primeira carteira profissional”, escreve a pesquisadora.

A inquietação de Lubi ganhou outras dimensões a partir de sua pesquisa de doutorado, intitulada Raça e gênero nas imagens libertadoras produzidas por fotógrafas negras, brasileiras e contemporâneas e os seus impactos na subjetividade de mulheres negras: Contando outras histórias. Sob orientação de Lineu Norió Kohatsu, docente do IP, a pesquisadora investigou, por meio de entrevistas, o impacto de imagens libertadoras produzidas por fotógrafas negras brasileiras na subjetividade de outras mulheres negras.

Imagens libertadoras, de acordo com ela, são aquelas que alforriam as mulheres negras dos estereótipos de raça e gênero que, há séculos, estão presentes no imaginário geral. A existência dessas imagens “desafia a ordem social racista e recupera não apenas o presente e o futuro das mulheres negras, mas também os séculos passados de circulação de imagens opressoras”, escreve a fotógrafa.

Em sua pesquisa sobre a fotografia de mulheres negras, Lubi percebeu, apesar disso, que a escassez de registros fotográficos não era algo exclusivo de sua família, mas uma ausência contínua também entre outras pessoas negras — cenário que se agrava entre as mulheres negras.

Segundo ela, ao observar outros estudos que se dedicaram à fotografia de pessoas negras durante o período da escravidão e do pós-abolição, “foi possível percebermos que a representação do negro neste período era a imagem que o europeu gostaria de fixar do Brasil. Confinava-o, portanto, ora no ‘exótico’, ora em uma visão romântica e alegórica da escravidão, como uma das formas de manutenção do processo de colonização, ainda em curso”.

A presença da mulher negra nesses estudos e imagens era, no entanto, quase imperceptível. Nas poucas vezes em que ela aparece nos registros fotográficos, está confinada ao trabalho realizado como escravizada nas plantações, nas casas e nas cidades; ao estúdio, como ama de leite; ou à esfera da sexualidade. Para Lubi, “nas fotografias em que o caráter sexual é explícito, e nas quais as mulheres negras costumam figurar seminuas, fica evidente a dupla qualificação de sua subalternização, oprimidas por sua raça e também por seu gênero”.

“Como e por que se reconhecer como mulher negra quando as imagens associadas a nós são tão negativas? Como contar outras histórias sobre essas mulheres?” Essas foram algumas das perguntas que orientaram Lubi ao longo de sua pesquisa e da concepção de Maternidade Negra à Luz. “Pelo sim ou pelo não, ao meu ver, o poder de construir outras imagens estaria nas mãos de mulheres negras”, escreve em sua tese.

Para Renata Felinto, artista visual, pesquisadora, professora da Universidade Regional do Cariri (URCA) e curadora da mostra, se fotografia é a escrita com a luz, Lubi transforma essa escrita em memória, permanência e reinvenção dos imaginários sobre mães negras. “As mulheres retratadas por Lubi elaboram maternidades atravessadas por deslocamento, autoconhecimento e transformação. Não aparecem reduzidas ao sacrifício nem aprisionadas a modelos idealizados do maternar.”

Lubi é mãe de uma criança de quase cinco anos. Segundo ela, além de oportunizar novas imagens para as mães negras, a exposição também é uma forma de reelaborar os imaginários para suas crianças. Agora, a ideia é investigar e explorar, também por meio da fotografia, as diferentes experiências de maternidade negra no Brasil.

Exposição

Maternidade Negra à Luz

Visitação: até 19 de setembro
Local: Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – Complexo Cultural Oswald de Andrade
Entrada: gratuita

*Sob supervisão de Antonio Carlos Quinto

**Estagiária sob orientação de Thiago Quadros

fonte: https://jornal.usp.br/diversidade/etnico-racial/exposicao-apresenta-novos-olhares-sobre-a-maternidade-negra/

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