Com trajetória marcada pelo jornalismo e ativismo civil, jornalista investigou a Playboy e liderou marchas nos Estados Unidos

A ativista participou da cobertura da Marcha sobre Washington e integrou protestos contra as guerras do Vietnã e do Golfo -  (crédito:  Angele Weiss/AFP)

A ativista participou da cobertura da Marcha sobre Washington e integrou protestos contra as guerras do Vietnã e do Golfo - (crédito: Angele Weiss/AFP)

Gloria Steinem, uma das principais referências do feminismo nos Estados Unidos, morreu aos 92 anos nesta quinta-feira (3/9). A morte da escritora, jornalista e ativista foi comunicada pela Fundação Gloria Steinem, que informou que ela morreu "pacificamente em casa, em Nova York, cercada por alguma das muitas pessoas que a amavam." A causa da morte não foi divulgada.

Ao longo de mais de seis décadas de atuação pública, Steinem combinou jornalismo e militância política em campanhas pelos direitos das mulheres e pelos direitos civis. Também se posicionou contra conflitos armados e participou de mobilizações relacionadas à Guerra do Vietnã e à Guerra do Golfo.

Vida e ativismo

Nascida em 25 de março de 1934, em Toledo, no estado de Ohio, Gloria Steinem passou a infância em uma família que enfrentava dificuldades financeiras. Os pais se separaram quando ela tinha 10 anos, e a convivência com a mãe, em uma casa deteriorada da cidade, contribuiu para que percebesse desde cedo as dificuldades enfrentadas por mulheres que precisavam trabalhar.

Steinem se formou em 1956 no Smith College, onde estudou ciências políticas, e passou os dois anos seguintes na Índia. Durante o período, trabalhou como assistente jurídica na Suprema Corte indiana.

De volta aos Estados Unidos, assumiu a direção do Independent Service for Information on the Vienna Youth Festival, organização que atuava nos bastidores para influenciar estudantes americanos em relação aos festivais mundiais da juventude e dos estudantes, realizados em países do bloco soviético.

A entidade tinha financiamento da CIA, algo que Steinem posteriormente reconheceu ter conhecimento na época. Ao falar sobre sua participação na operação, afirmou: "Se eu pudesse escolher, faria tudo de novo."

A carreira jornalística ganhou novo impulso em 1962, quando o editor Clay Felker lhe confiou uma reportagem para a revista Esquire. O texto, sobre contracepção, abordava a pressão colocada sobre mulheres para conciliar a vida profissional e a formação de uma família.

A carreira ganhou impulso em 1962 com uma reportagem para a revista Esquire sobre a pressão da maternidade no mercado de trabalho

A carreira ganhou impulso em 1962 com uma reportagem para a revista Esquire sobre a pressão da maternidade no mercado de trabalho(foto: Divulgação/Mary Ellen Mark)

 

No ano seguinte, Steinem passou 11 dias trabalhando disfarçada como coelhinha da Playboy para investigar as condições enfrentadas pelas funcionárias do Playboy Club, de Hugh Hefner.

A experiência deu origem a uma reportagem em duas partes sobre o tratamento recebido pelas modelos, que eram obrigadas a trabalhar com roupas justas e salto alto.

Durante o período, ela perdeu 4,5 quilos e chegou a ter o uniforme apertado pelo próprio agente. Depois que o texto foi publicado, afirmou ter encontrado dificuldades para conseguir novos trabalhos porque "agora eu era uma coelhinha – e não importava o motivo".

Gloria Steinem playboy

Nos anos 1960, Steinem trabalhou disfarçada como coelhinha da Playboy para denunciar as condições abusivas das funcionária(foto: Reprodução)

 

A atuação política também se tornou uma parte central de sua trajetória. Em 1963, Steinem esteve na Marcha sobre Washington, quando acompanhou o discurso de Martin Luther King Jr. Décadas depois, relatou em sua autobiografia Minha Vida na Estrada, lançada originalmente nos Estados Unidos em 2015 e publicada no Brasil pela Bertrand Brasil, que a experiência contribuiu para ampliar sua compreensão sobre as relações entre raça, gênero e controle do corpo feminino.

Ao recordar aquele período, escreveu: "Os paralelos entre raça e casta — e como o corpo das mulheres era usado para perpetuar as duas coisas. Prisões diferentes, a mesma chave".

Steinem também participou de protestos contra a Guerra do Vietnã, nos anos 1960, e de manifestações contrárias à Guerra do Golfo, na década de 1990. Sua atuação ao longo dos anos ajudou a consolidá-la como uma das vozes mais conhecidas do movimento feminista americano, especialmente na defesa dos direitos das mulheres e no combate à violência doméstica e ao feminicídio.

Críticas a Trump

Aos 83 anos, em 2017, Steinem voltou a ocupar espaço no debate político americano ao comentar os protestos contra o então presidente Donald Trump. Para ela, a dimensão das manifestações não encontrava paralelo entre os movimentos que havia acompanhado ao longo de sua vida.

A ativista também fazia críticas contundentes ao comportamento de Trump e à maneira como ele exercia a Presidência. Em uma entrevista daquele período, classificou o republicano como perigoso.

"Não preciso te explicar o quão perigoso é o presidente, como indivíduo, ser não só um racista, uma pessoa que semeia a discórdia, um homem de negócios que já seria rico se apenas investisse o dinheiro que herdou, mas também um narcisista que claramente não tolera críticas".

A vitória de Trump sobre a democrata Hillary Clinton também levou Steinem a questionar o sistema eleitoral dos Estados Unidos. Na avaliação dela, o resultado permitia que uma parcela minoritária dos eleitores tivesse peso desproporcional na definição dos rumos do país.

Saúde e vida pessoal

Steinem foi diagnosticada com câncer de mama em 1986. Oito anos depois, recebeu o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo, doença associada a episódios de dor crônica.

Depois de passar décadas rejeitando a ideia de casamento, ela se casou em 2000 com o ativista ambiental David Bale. Os dois permaneceram juntos até a morte dele, em 2003. Steinem também manteve uma relação próxima com o ator Christian Bale, filho de David.

Em 2011, aos 77 anos, Steinem falou ao jornal britânico Observer sobre a vontade de continuar vivendo e trabalhando. Na ocasião, declarou: "Espero viver até os 100 anos. Há tanta coisa para fazer."

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fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/09/7492997-morre-gloria-steinem-icone-do-feminismo-morre-aos-92-anos.html

 

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