O hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro, já é referência em humanização no país e visando a inclusão de homens trans e pessoas não-binárias, abriu em 2024, um ambulatório especializado em pré-natal e planejamento reprodutivo para essa população.

Homens trans e não-binários designados mulher ao nascer, possuem útero e portanto podem engravidar. Essas pessoas sofrem com a falta de acesso à atendimentos de saúde íntima, além de transfobia e violência obstétrica. Em contrapartida, é um grupo que se organiza politicamente, reivindicando direitos. Cada vez mais homens trans e não-binários vêm formando famílias e exercendo autonomia sobre seus corpos. A Iniciativa é um grande avanço e serve de exemplo para outros espaços de saúde no Rio de Janeiro e em todo país. 

O ambulatório conta com um suporte multidisciplinar da Maternidade para a realização de acompanhamento de pré-natal, como clínica médica, nutrição, enfermagem, psicologia e serviço social, além de seus serviços de urgência e emergência obstétrica, laboratório e USG obstétrico. No planejamento reprodutivo, é oferecido a inserção de dispositivo intra-uterino (DIU), caso o usuário tenha interesse. O ambulatório não realiza acompanhamento de hormonização e procedimentos cirúrgicos de afirmação de gênero.

A Dra. Camila Iung, médica obstetra e ginecologista do ambulatório conta que por trabalhar também em um ambulatório trans (Transidentidade, na Policlínica Piquet Carneiro da UERJ), já foi chamada para acolher pacientes trans que foram admitidos na Maternidade nos últimos anos. Ela esteve, inclusive, presente no primeiro parto de um casal transcentrado (casal formado por pessoas trans) que teve seu bebê em 2021 na Maternidade Maria Amélia. “Pude ver de perto algumas das dificuldades enfrentadas por aquela família.” 

Esses acompanhamentos a fez perceber a necessidade de abrir um setor na Maternidade especializado nessa população. Desde fevereiro de 2025, ela vem então, em conjunto com a Direção da Maternidade Maria Amélia, na figura da Dra Ana Murai, buscando uma forma de criar um ambulatório para acolhimento de mais pessoas trans gestantes. “Nosso objetivo é que a maternidade, que já é referência para parto humanizado, possa criar laços e ser abrigo para todas as famílias que nos procuram. E que possamos acolher todas as formas de parentalidade no SUS.”

Além do pré-natal, Camila solicitou que fosse também um espaço em que se possa falar sobre planejamento reprodutivo, oferecendo a possibilidade de método contraceptivo de longa duração, como o DIU. Segundo ela, é necessário avançar no debate sobre contracepção para pessoas trans que usam testosterona e portanto estão sem menstruar. É um grupo que por vezes precisa evitar uma gestação não planejada e não possuem informações necessárias, acreditam que por a testosterona cessar a menstruação, não há mais a possibilidade de engravidar, o que não é verdade. 

João Carlos (nome fictício), homem trans, 21, professor, relata que chegou ao ambulatório com três meses de gestação. “Eu fui no meu primeiro atendimento lá e é absurda a diferença do tratamento dos funcionários, da estrutura e de todo o funcionamento do sistema”, contou.

O pré-natal de João é considerado de alto risco devido a uma patologia. Ele fala que já saiu da primeira consulta com exames de sangue e ultrassonografia marcados. “O atendimento é ótimo, me tiraram dúvidas que eu nem tinha coragem de perguntar nos outros lugares que tentei fazer o pré-natal.” Ele conta que finalmente sentiu que alguém levou a sério o problema que ele está tendo com enjoos e vômitos, identificaram que uma perda de peso mais do que o normal e já o passaram um tratamento que está sendo eficaz. “Já estou sem vomitar há dois dias.”

O professor completa: “Estou muito feliz com esse atendimento deles, eu tava com medo antes por causa do pré-natal ‘paia’ que eu tava tendo, o peso que saiu das minhas costas é bizarro. Me sinto aliviado demais agora em ter esse acompanhamento.”

A Dra. Camila finaliza: “Espero que possamos cada vez mais sermos vistos como um local de acolhimento em que mais pessoas possam confiar, seja para acompanhamento da gestação e parto, seja para um adequado planejamento.”

Para ser atendido pelo ambulatório é necessário preencher um formulário: 

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScENG5Vc8dixmv4EKpfz49Ki5p4lhIScmMErOHFNzU56fZkPg/viewform